Faz parte da vida, mas dói deixar lembranças cravadas nos outros. É claro, não me causa nenhum arranhão fazer uma pessoa rir, mas ela certamente pode vir a chorar pelo roxo causado.
É como uma bomba relógio ... esperando para explodir no momento mais inoportuno, ou no clímax mais trágico.
Assim, é quando terminamos de passar pela vida na qual deixamos nossa marca em várias pessoas, como aquelas assinaturas no gesso do braço quebrado – a única diferença é que quando o gesso se quebra, os traços são fragmentados e alguns jogado fora.
Acabei de sair do sofá, uma hora depois de me haver sentado. hora dentro da qual mais de 20 anos se passaram em minha cabeça. Várias memórias que agora se juntaram para formar um mosaico de quem acabamos de perder.
Não penso em um ídolo ou ícone de massas. Lembro de alguém que teve seus defeitos; que teve suas qualidades; Que fazia piadas sem graças às vezes, mas que por este fato me fazia rir. Alguém que cantava para mim quando era bebê e depois quando virei criança. Alguém que também vi deixar a adolescência e se tornar adulta e depois mãe.
Ainda me lembro de um momento, logo quando aprendi um pouco de violão naqueles livrinhos cifrados, em que cantava algumas músicas do Legião Urbana, sua banda favorita. Como seus olhos brilhavam. Me enchi de orgulho, mas não foi o meu talento que me havia inflado, e sim o fato de vê-la tão deslumbrada. De repente vi que estava feliz. Não que ela tenha sido o contrário o resto dos dias em que a conheci, mas foi ali que eu percebi o quão pequeno os gestos podem ser e que, por este detalhe, não os notamos.
Mas não foi só isso que ela me ensinou. Me recordo muito bem das aulas de biologia que esta professora dava aos seus sobrinhos.
Ah ... Esquistossomose, protozoários, Tênia Solitária.
Estávamos todos dentro do quarto. Não me lembro bem quais dos meus primos estavam dentro dele. Fato é que as duas camas estavam cheias de crianças com olhos esbugalhados e preocupados com as ações anteriores e repassando sintomas em uma auto-análise. “Será que lavei as mãos depois de sair do banheiro?”, “Será que minha barriga está mais inchada que o normal?”. A aula mais parecia uma roda de fogueira, dessas em que o chefe dos escoteiros conta uma história de terror para apavorar a tropa.
Logo lágrimas borbulhavam do meu irmão, convicto de que havia um hóspede a mais que a comida ingerida dentro de suas vísceras. Enquanto ele chorava, outros riam e ela explicava ao falso hospedeiro que não havia nada extra em sua barriga.
Os assobios durante as falas (uma piada de família), os encontros de família na casa de meu avô. . . . Tantas lembranças e cenas que traziam felicidade agora pesam (como a tênia) na barriga e me dão suspiros. A bomba explodiu.
E quando voltamos ao mundo real, o primeiro sentimento é o do vazio, como daquele espaço onde antes ficava seu brinquedo, que apesar de favorito não o utilizava tanto. Começamos a pensar que deveríamos ter aproveitado mais, passado mais tempo com ele. Recordamos dos melhores momentos, porque são eles que fazem as pessoas.
E agora eu percebo que Renato Russo se enganou, porque apesar se nos acharmos sempre jovens, não temos todo tempo do mundo. Pelos menos agora me parece que tudo voa muito rápido e os adiamentos se tornam eternos.
Mas pensando por outro lado, uma sábia familiar me disse que, uma vez que nos vamos, não levamos livros, mas o pensamento viaja conosco. Sendo assim, talvez ganhemos, enquanto vivos, mais alguns minutos deste mundo para sentir o amargor do arrepender de atos ou a falta deles no passado e, num segundo passo, relembrarmos e degustarmos as boas memórias do passado e fazer aquele que nos deixa saudades viver, por mais alguns instantes, aquele bom momento em nossas recordações.
