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15/02/2013

As Férias


Geraldo, um senhor que eu conheci durante o período no qual trabalhei com atendimento ao cliente tirou suas primeiras férias pela empresa na qual nos conhecemos. Na verdade, sabia pouca coisa dele: pouco mais de quarenta anos, filhos casados e pouca habilidade com o computador, apesar de o usarmos bastante na empresa.

Enquanto ele estava fora, fui eu o responsável por suas funções, um trabalho árduo de atender reclamações e corrigir alguns pedidos. Com muito “suor e rebolado” para atender à minha função e a dele, realmente esperava que ele estivesse curtindo (e muito) o período.

A recompensa do meu trabalho veio quando ele voltou, com uma cara vívida, como se durante o período houvesse entrado em um SPA que, apesar de não resolver as rugas e as olheiras (um pouco mais profundas que antes), retornara o brilho adolescente aos olhos quarentões.

- Cara, tive As Melhores Férias de minha vida!!!! Vi cada coisa que acho que ninguém mais viu!!!
- Poxa cara, parabéns, que bom!!
Isso era ótimo para mim, além do alívio nas tarefas, via que minhas férias se aproximavam e poderiam ser tão boas quanto as dele.
- O que você fez, para onde você foi?! Me conta!!!

Uma pausa foi feita para deixar que o supervisor passasse (com olhar de “vamos trabalhar, pô!”)
- Encontrei um lugar único! Cheio de gente habilidosa, você devia estar lá também (fazendo referência a algumas composições mal terminadas que apresentei a ele).
- Nossa!! Você foi pra onde?

Parece que ele não me ouviu, entrou em uma espécie de êxtase lembrando de sua viajem e, ao que parece, não iria voltar a si até que terminasse sua locução:
- Tinha palhaços, dos bons se apresentando ... um pintor muito maluco que jogava tinta pra cima ...

Neste momento, os olhos de Geraldo perfuravam um buraco no espaço-tempo, vendo coisas do passado. Mesmo que mirassem para os meus, o que ele via era o tal do lugar que conhecera. Eu, cada vez mais ansioso para conhecer o lugar “mágico” parecia uma criança que quer saber o final da história.

- Você foi no circo? ...
- Tinha também uns caras tocando gaita e violão ao mesmo tempo ...
- Encontrou uma casa de shows? ...
- ... um mágico muito desastrado mas que fazia umas coisas loucas sem querer...
- Viajou pra Las Vegas?
-... um japonesinho que tocava piano como ninguém...

A conversa virou burburinho e o diálogo mais parecia dois monólogos acontecendo ao mesmo tempo. A cada nova atração comentada, o via cada vez mais longe. Minha imaginação tentava encontrar imagens daquilo e começou pelas calçadas do centro de Curitiba, onde morei por um tempo. Mas depois de várias adivinhações e esforço mental, não conseguia enxergar toda aquela descrição por locais que visitei. No fim, já o imaginava viajando para Istambul ou algum local muito distante. Precisava cortar a frenesi de ambos:
- CARACA, Geraldo!!! Pra onde você foi?! (ele voltou a si e voltou a me enxergar)
- Ah, eu fiquei em casa e descobri um site chamado youtube, você precisa ver!!!

14/09/2012

Obrigado Mãe


Agradeço a minha mãe por não ter feito como as outras. Isso poderia ter me deixado na mesma situação que vejo outros camaradas do mesmo sexo, dependentes do gênero cuja representação era um mais para baixo.
 
Lá... nos tempos pré-históricos, homens e mulheres fizeram um pacto. A moça, por ter que cuidar da cria (e isso eu digo que foi um pacto sim! Veja o caso dos pinguins... são os machos que cuidam dos pequenos enquanto mamães vão à caça) ficava lá pela toca, com as comadres, ajeitando o lugar até que os fortões voltassem com alguma caça para que elas cozinhassem (e me perdoem os historiadores se estes não forem bem os fatos. Alego licença poética por omitir trechos de nossa linha do tempo, como a descoberta do fogo, etc.).
Imagino como os homens ficavam enquanto esperavam a comida. Com os pés para cima e coçando os piolhos, afinal, já tinham feito todo o serviço que a eles cabiam.
 
Pois bem! Volto a agradecer a minha mãe, por ajudar na evolução deste e outros dois seres (meus dois irmãos)!
 
Com o passar dos tempos e após certas décadas da revolução industrial, as mulheres resolveram mostrar que não eram simplesmente bolinhas neste mundo, esperando para servirem os maridos. Saíram para as ruas, começaram a votar, a trabalhar e a ocupar cargos gerenciais e de motoristas.
O mais interessante é que, além de trabalharem fora de casa, arrumam tempo para criarem seus filhos e, em muitos casos, cuidarem da casa, da janta e outros etceteras.
Minha mãe é uma dessas. Cuidou de três filhotes, hoje homens barbados e, de certa forma em outro degrau daquele quadro magnífico que representa a evolução do homem, partindo do macaco até o rapaz ereto e de maleta. Acredito que nós (e aqui somo meus irmãos e outros que compartilhem dessa evolução), somos o próximo desenho, aquele que segue a fila: Além da maleta, temos na outra mão uma panela, ou quem sabe um ferro de passar.
Não nos menosprezem ao conseguirem criar na cabeça essa imagem, pois é por este motivo que agradeço a minha mãe!
 
Não tendo nenhuma filha, ou talvez por outras n razões que desconheço, esta moça nordestina botou seus filhos para estudarem, buscarem uma profissão e, mais que isso, se virarem nos trinta para se organizarem em casa.
Não precisamos esperar, como aqueles pequenos passarinhos no ninho e homens da antiguidade (que nem precisa ser muito antigos), pelo alimento. Não! Nós o trazemos como fruto de nosso trabalho, mas também somos capazes de arregaçar as mangas dentro do lar e “não morrer na praia”.
As moças ficaram independentes pois aprenderam a trabalhar fora de casa, mas agora está na vez dos homens se livrarem das algemas comodistas e darem um passo a mais, equiparando-se com as mulheres modernas, independentes como são na vida.
 
Mais uma vez, muito obrigado mãe, por nos ensinar a subir mais este degrau!

10/01/2012

A gente quer comida, diversão, arte e TEMPO!

O homem passa fome e por apertos em sua casa e logo começa a piar por alguma clemência de quem passa pelo lado, ou talvez de algum vizinho bondoso:

Que brasero que fornáia ... nem um pé de plantação, (...) até mesmo asa branca foi-se embora do sertão...

Pois mais tarde, em 1987, a azia do homem não o deixa. Ele ganhou algumas migalhas, mas sua fome é mais profunda do que o espaço em seu estômago.

A gente não quer só comida, a gente quer comida diversão e arte!

É, Titãs ... mesmo com o nome grandioso, a fome que aclamaram foi sufocada por fast foods e obesidade. Queriam cultura e logo tivemos uma enxurrada de informação pelos cabos de fibra óptica.
 Mas não sei se alguém já sentiu essa queimação que eu agora tenho. Espero que logo alguém entoe um hino por esse item faltante na mesa da sociedade. Onde está o tempo para matar a fome, seja ela qual for.
Vejo por aí pessoas correndo com um pedaço de coxinha na mão. Em casa, quem tem tempo de ler um livro, de amá-lo e digeri-lo aos poucos, evitando assim uma congestão cultural? Infelizmente, por enquanto é tudo guela abaixo... quibes, big mac’s e o que te servirem em frente à TV. Não sou cantor e por isso, só acrescento um item à reivindicação da primeira banda de todos os tempos da ultima semana:

A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão, arte e TEMPO pra digerir tudo isso!!!

04/01/2012

Se eu Pudesse

Olá, meu nome é Billy e minha vida é sempre a mesma coisa. Acordo; faço minha caminhada e logo vou trabalhar. Atuo na área de segurança patrimonial.
A refeição também é a mesma... SEMPRE ... acho que a cozinheira não tem muito criatividade, mas fazer o que.
Meu pagamento também é o mesmo: não é muito, mas tenho uma casa para morar.
Ah é! Minha casa! Acho que ela poderia ser maior mas, como o de sempre, dependo do meu chefe para conseguir um quarto extra. Não, ainda não conversei com ele!
Me perguntaram quais são meus planos para o ano novo, mas eu não faço planos. Quer dizer, até fazia, mas estou sempre dependendo de alguém para que meus planos aconteçam. Ano passado decidi que iria sair mais (para paquerar, hahah) mas isso, mais uma vez, dependia do meu chefe me levar e, como resultado, não aconteceu.
Iria aumentar a minha casa (como já falamos) mas isso (adivinhem) dependia de outras coisas e outros indivíduos.
Até pensei em juntar minhas trouxas com a cadela da vizinha, mas não me deixaram. Se ao menos eu tivesse polegares para construir meus cômodos extras; para abrir o portão de casa e outros. Se ao menos eu pudesse falar, como meu chefe ... Aí sim eu faria planos! E MAIS IMPORTANTE: os colocaria em ação!
Mas o jeito é ficar aqui mesmo, babando sobre tudo o que eu gostaria, demarcando meu território e abanando meu rabo a espera de alguém que faça as coisas por mim.
SE AO MENOS EU PUDÉSSE... EU AGIRIA!!!

Um feliz ano novo, cheio de planos e, mais importante, de ações!!!

24/12/2011

O melhor presente que se poderia ganhar

O menino tinha assoprado as velas de seu 9° aniversário aquele ano e o Natal se aproximava. “Legal! Mais presentes!”, era o que o garoto falava toda a vez que tocavam na data mais esperada das crianças (mais que o próprio dia das crianças, no qual os pequenos ganham brinquedos furrecas em comparação ao Natal).
“O joãozinho disse que vai ganhar o Mac Steel Ultra Mega e o ricardinho pediu pra ganhar o novo video game mega blaster... ah e o Fernandinho vai ganhar uma bike e o ...” e assim continuava quase ofegante e mal se lembrando de respirar.
Vendo a excitação de Juquinha em receber presentes, Valmir, o pai, disse ao filho que iria lhe dar o melhor presente do mundo. O garoto quase explodiu de euforia, ainda mais quando, de imediato, entraram no carro para comprar o tal presente.
Foram ao centro e pararam em frente a uma distribuidora de doces. Não eram brinquedos, mas já era alguma coisa.
“Escolha os dois melhores doces da loja”, disse o pai visualizando instantaneamente olhos esbugalhados e incrédulos.
Com os doces escolhidos e dois sacos cheios no carro Valmir pergunta: “Você está feliz?”. O garoto não titubeia ao responder com grandes movimentos em afirmativo da cabeça e um sim exagerado. “E se eu disser que iremos para uma loja de brinquedos e quer você poderá escolher vários?” ... Juquinha precisou de um tempo para assimilar o que acabara de ouvir e, depois de entendido, segurou o choro mas não conseguiu responder.
Eles foram à loja. Um local simples com brinquedos baratos. De qualquer forma o garoto não conseguia se conter de emoção, afinal, o pai falou em brinquedossss... no plural!!! “Você está feliz?”, perguntou novamente o pai que recebeu um grande abraço molhado de lágrimas de felicidade e um sim parcelado entre os soluços.
Fim do dia e o porta malas estava cheio de balas e brinquedos, mas Juquinha percebeu que o caminho que faziam era diferente. Chegaram a um bairro a poucos quilômetros do seu mas, apesar da pouca distância, a diferença era grande. Casas muito simples, algumas ainda com a alvenaria a mostra.
“Esse, meu filho, é o melhor presente do mundo que eu te dou”. O pai, com um brilho nos olhos, entregou a juca um gorro de Papai Noel, gêmeo ao que o pai também vestia.
Ele o vestiu e segui o pai para fora do carro ouvindo o pai dando gargalhadas parecidas ao do bom velhinho “Ho ho ho, feliz natal criançada!!! Quem quer presente?”
Logo, o brilho que antes pairava somente dentro dos olhos do pai contagiaram as crianças que vinham pulando de alegria para ganhar algo inesperado.
Raiva, desentendimento e confusão foram os primeiros pensamentos de Juquinha, mas a cada criança que saía feliz de trás do carro com um embrulho nas mão fazia com que sua mente, aos poucos esquecesse o brinquedo e focasse na felicidade que ali pairava, no meio da rua... em meio a um bairro desconhecido. Aquele era realmente um dos melhores presentes que seu pai lhe dera
“... vem aqui ajudante!”, gritou o pai, acordando o menino do transe e fazendo Juquinha correr até o porta malas

21/11/2011

A era de "IS"

Os cientistas e historiadores do ano 2100 argumentavam entre si sobre a nomenclatura de um determinado ciclo do passado que merecia ser reconhecido na linha da humanidade.
A época dos computadores, aquela em que eles já haviam invadido todas as casas e a tecnologia de fibras ópticas, touch screens e wi fy cobriam cada centímetro de parede, fossem elas industriais ou domiciliares.
“Aquela deveria ser chamada de A era de IA, Inteligência Artificial. Todos tinham um andróid nos tablets e tv’s! O tal nome é o mais plausível!”, disse um cientista encoberto pela euforia da discussão.  “Deveríamos chamar de a era da informação! Foi nesta época que todos tiveram acesso a todo tipo de informação!” Gritou um historiador transtornado pela blasfêmia anterior.
Assim continuou a briga até que um sociólogo, metido a diplomata, que trabalhavam ao lado se cansou dos dias a finco de discussões na sala ao lado e resolveu achar um meio termo.
“Com licença, eu gostaria de propor um novo nome!”, disse o sociólogo para o qual olhares de cólera imediatamente se voltaram.
“Na verdade é um meio termo entre as duas nomenclaturas que vocês propuseram”. Logo, um brilho de curiosidade perpassou e as sobrancelhas apontaram para o céu em sinal de dúvida.
Olhando para os cientistas, o sociólogo disse: “Vocês dizem que aquela foi a era da inteligência criada pelos computadores, certo, aquela a qual nós nos rendemos e cultivamos?!”. Os cientistas balançaram a cabeça firmemente para frente e para trás. “E vocês afirmam que foi a época da informação rápida e a qual todos têm acesso desde então”. As outras cabeças também entraram no coro silencioso de “sim’s”.
“Portanto, gostaria de propor um termo que vai além dos fatores externos. Que mostra como, a partir daí o ser humano modificou sua forma de pensar e de ser. A era em que os computadores e redes de comunicação nos alteraram para todo o sempre. Que fez com que alcançássemos este auge no qual estamos hoje, há Séculos  afrente”. Com um fervor de aclamações e plausos, o sociólogo saiu carregado pelos braços de cientistas e historiadores. As novas linhas temporais já tinham um novo nome em sua ponta mais recente.
“A Era de IS – Inteligência Superficial”

13/10/2011

O substituto

Há alguns anos atrás, uma mãe saía de viagem rumo à Inglaterra. Deixaria seus filhos durante todo o mês de outubro, o que significaria que o dia das crianças seria longe dos meninos. Apesar da lástima e o peso no coração ela partiu, afinal, a viagem seria uma experiência única.
Para compensar a ausência, deixou um urso de pelúcia. Simples, exceto pelo tamanho um pouco avantajado, não tinha nada de mais.
Durante a ausência da mãe, os meninos abraçavam e conversavam com o ursinho, uma forma de passar o tempo. Dentro do ursinho eles encontravam um pouco do amor que a mãe deixou a eles, mas sabiam que o objeto não era real e, no fundo, sentiam que era apenas um consolo enquanto a mãe não retornava. Ela voltou, eles a envolveram e conversaram – naquele dia e nos outros que se passaram.
A pena é que o fato se alastrou e hoje em dia, muitos pais fazem a mesma coisa, mas da forma errada: a promessa de retorno do afeto é constantemente quebrada, o que gera um ciclo vicioso.
O menino de agora sente falta de carinho e abraça o robô, mas ele é frio, metálico e automatizado. A chama do afeto que era transpassada enquanto o brinquedo era dado pelos pais se apagou. Hoje, o brinquedo é jogado dentro de uma caixa enfeitada e deixada para o menino de agora.
De tanto esperar o afeto e ser magoado, uma casca se cria no coração da criança e a repetição fica na memória: Ter um brinquedo é ter amor - é isso que eles pensam. Quanto mais brinquedos mais amor, certo?! Acho que não

12/08/2011

Pai é quem cria


Como o dia dos pais se aproxima, a professora de filosofia de uma escola particular resolveu deixar de lado o estudo de filósofos antigos e incitar nos alunos, de forma indireta, o amor que eles sentem pelo progenitor. A professora explica que vão falar sobre uma pessoa muito próxima delas e a idéia é que eles analisem o quanto gostam desse cara, mas sem citar os nomes ou o grau de familiaridade. Depois, todos devem escrever um cartão para a figura da charada.
“Eduardo, o que a pessoa mais importante do mundo para você fez por você?”
“Bem, professora”, responde, em uma voz baixa, o aluno mais quieto da sala depois de pensar um pouco ... “ele me fez perceber quem eu sou, me ajudou a ficar de bem comigo mesmo!!”
“Nossa Eduardo, que ótima definição!!!”, disse a professora satisfeita com o rumo da conversa. “Bruno, sobre essa pessoa importante para você, o que você mais gosta nela?”
“Ummm, ele está sempre preocupado comigo”, responde o menino de aparelho nos dentes. “Mesmo quando a gente não tá junto, ele me liga pra saber como estou”.
“Perfeito, Bruno!”, respondeu a professora com todos os dentes a mostra, exacerbando felicidade. “Ok. Fernanda, o que essa pessoa te ensinou de mais importante?” A menina mais alta da sala respondeu sem titubear:
“Que não podemos desistir! Que temos que ter garra para alcançar a nossa meta!”
A professora já não conseguia conter a empolgação e a turma também entrou no clima. Os alunos já não se sentiam acanhados em responder às perguntas.
E assim foi com mais algumas perguntas e respostas extasiantes para a orientadora da atividade. Ao final ela então pediu para que todos se preparassem para dizer, em uma só vez quem é essa pessoa tão importante.
A professora já conseguia ouvir em sua mente o som uníssono de vozes adolescentes declamando a resposta óbvia da charada. Contudo, o que se escutou foram palavras e mais palavras fundidas em alto tom que depois sumiram no silêncio da sala.
Perplexa, a professora repassa em sua mente o que pode captar. “Todos Erraram?!” “Eduardo, quem é a sua pessoa importante?” “meu psicólogo”, disse o garoto envergonhado. “Ele me ajudou bastante na minha... timidez”.
A menina alta também levanta a mão para responder sobre a sua: “O meu é o técnico do time de vôlei. Ele sempre fala pra gente buscar até o último ponto”.
“E o seu Bruno, quem sempre se preocupa com você?”; “Meu dentista?”, disse o garoto já inseguro devido ao clima de perplexidade na sala.
O sinal bate. A professora pede para a classe que pensem em casa um pouco mais e que façam o cartão. “Uma última dica: tem uma data comemorativa para essa pessoa ainda essa semana!”
Na aula seguinte, a professora descobre que eles copiaram do Google, uma frase bonita para dar a algum cardiologista (profissão que alguns não sabiam direito o que era). Somente um veio conversar e mostrar o cartão pessoalmente. “Era esse que você queria que a gente respondesse?”. Na face do cartão estava escrito: Feliz dia dos Pais.
A professora respondeu com entusiasmo que a resposta estava certa. O garoto, que usava um tênis mais simples que os demais, retrucou, antes que a professora o elogiasse. “Pra eles, você deveria ter também dito que é aquele que compra tudo que eles querem”.
A professora devolveu o cartão e Ele foi embora, anotando algo a mais dentro do bilhete.

Obrigado pai por ter me criado.
Esse é um presente que poucos dão aos seus filhos hoje em dia.

Ele sabe que seu pai vai se atrasar de novo, pois sempre tem trabalho a terminar. Mas é o pai dele quem o leva para casa e vai perguntar sobre o seu dia. 

05/08/2011

Intercâmbio cultural entre operários

Com o dólar baixo desses dias, muitos aproveitaram a oportunidade para fazer um intercâmbio cultural. Ótima chance de aprender sobre novos costumes e o jeito de vida de outros povos.

Foi o mesmo com a formiga. Para aprender como funcionam outras sociedades, resolveu vir ao Brasil. Por aqui aprendeu tudo sobre as conexões entre os humanos e como eles se relacionam. Fez estágio com os operários da região, afinal, sendo da mesma classe, queria aumentar sua bagagem profissional.

Depois de um ano inteiro de buscas pelo conhecimento, a formiguinha retornou a seu ninho, cheia de idéias e bugigangas.

Ao chegar dentro do formigueiro, reparou que o sistema em que trabalhava era escravista, que seu espaço dentro do ninho era pequeno e o sistema era autoritário.

Ela, então reivindicou junto à rainha um flat com vista para a horta do lado de fora e descanso remunerado. A realeza, temendo que tal idéia fosse transmitida para as outras operárias, acatou as modificações, mas pediu extremo silêncio de parte da formiguinha.

Com essa vitória, a pequena deslanchou, mas parece que havia perdido algo enquanto fazia o intercâmbio: fofocava sobre o problema das outras, mas não faz nada para ajudar; Fundou uma religião, falando sobre amor e sobre solidariedade, mas deixou de trabalhar pelo bem do formigueiro.

A gota d’agua foi quando formou uma chapa para concorrer com a rainha nas próximas eleições, um meio de conseguir chegar ao alto escalão. ... foi despedaçada minutos depois ao som do riso maquiavélico da Rainha que ordenou a execução.

Pobrezinha. Depois de tanto tempo no Brasil, conseguiu a dádiva da consciência, mas se esqueceu de como funciona uma verdadeira sociedade e a classe operária: unidos por um bem maior, ou por um inverno farto.


Soube que ao mesmo tempo o mesmo formigueiro também recebeu um ser humano e, apesar do choque cultural no início, deixou saudades entre as formigas. “Ai, ai, você tem notícias daquele rapaz do intercâmbio? Faz tempo que não o vejo”, perguntou um inseto para o outro enquanto transportavam um pedaço de folha. “Pois é, ele já voltou para casa, na Síria. Comentou algo sobre trabalhar em grupo. Até que enfim ele entendeu essa parte!”

05/03/2011

Músicas de Herança

Certa vez, conheci um senhor de idade que trabalhava como zelador em um shopping.
Todo dia, após a refeição, ele passava numa daquelas MEGASTORE’s que vendia de tudo.

O senhor ia direto a sessão de Cd’s, pegava um daqueles fones de ouvido que tocam trechos dos álbuns disponíveis para compras, ouvia algo, e ia embora. Foi numa dessas idas que eu o vi Pela primeira vez.
Eu não trabalhava no shopping, mas estudava próximo do local e, sempre que possível, ia para lá para passear e a megastore sempre foi meu local favorito.

Acho que aquele homem repetindo os mesmos passos umas quatro vezes antes de tomar coragem para começar a conversa e tentar descobrir o motivo do ritual.

Enquanto ele escolhia o que iria ouvir, cheguei próximo, como se estivesse procurando algo da prateleira em frente. A propósito, o tema dos cd’s em minha frente (e também do toca cd’s que o velho fuçava) era heavy metal.

“Nossa, você gosta de rock?”, perguntei olhando de relance para ele e apontando para os cd’s. “Não, não são meus favoritos”, foi a resposta. “O que você está ouvindo?”, “Uhmmm, Avantazía?!, eu acho”, senti que ele estava um pouco incomodado com minha segunda pergunta e resolvi desistir, por enquanto. Haveriam outros encontros.

Da outra vez o encontrei ouvindo pop  e fingi estar perdido na sessão, dei um oi e fiz um comentário daqueles que só saem na pressão e se pudesse, engoliríamos de volta as palavras. “Só no pôperô?”, “É, haha”. Fui embora.

Assim foi até nosso 7 encontro, no qual ele estava ouvindo samba. Resolvi finalmente ir direto ao assunto. “O senhor gosta tanto de música assim?, todo vez vejo o senhor aqui, ouvindo alguma coisa diferente?”
“Na verdade, não, mas gosto de pessoas” ... fiquei do lado dele... pensando na resposta ...
...

Depois de um minuto silencioso e com uma estátua do seu lado, ele resolveu explicar o que ele quis dizer com sua charada.

“Ontem eu estava ouvindo ... Caetano Veloso; normalmente não vejo o nome... escolho algum lugar e ouço alguma coisa que me pareça familiar e geralmente acerto. Esse rapaz (Caetano) me lembra da minha filha mais velha. Ela sempre ouvia essa música quando estava corrigindo provas dos alunos dela. Agora ela está em Pernambuco, casou com um moço de lá.

Semana Passada eu escutei uma música muito barulhenta ... qual era o nome mesmo ?... “lindin Parque”, alguma coisa assim... Eu brigava muito com meu filho caçula por causa disso, Hoje ele mora sozinho. Mora perto de casa, mas tenho saudades do tempo que ele morava comigo. Era uma bagunça só e os vizinhos reclamavam do som alto, mas a casa parecia que tinha mais vida.

Eu pensei por um minuto, absolvendo o conteúdo. “Mas você não tem fotos pra lembrar dessas pessoas?”

“Desses que eu te falei eu tenho fotos sim, mas e de meus ex-colegas, que ouviam sertanejo enquanto nós limpávamos os banheiros? De qualquer forma, não sei se percebeu, mas já estou velho e minha memória não é mais a mesma. Mas quando ouço essas músicas, lembro de como meu sentia em alguns momentos de minha vida, momentos felizes e outros nem tanto. Às vezes lembro até de pessoas que nem sei o nome... que simplesmente passaram por mim e me chamaram atenção, aqui mesmo no shopping. É como se eu revivesse aqueles momentos de novo, entende?”

Mais uma vez fiquei refletindo sobre toda aquela informação, mas dessa vez eu compreendi. E como um estalo, comecei a pensar nas pessoas que já encontrei em minha vida e nas músicas que eles me deixaram de herança. Pessoas com quem trabalhei, Cd’s que me deram, como estava o momento em que tal música tocou ...

Depois de um momento voltei a mim e notei que o senhor me olhava, como se entendesse o que se passava em minha cabeça, sabe, como um professor que percebe quando o aluno absorveu o conteúdo do quadro.

“Então hoje você também está ouvindo algo que não conhece?”, perguntei eu. “Não, hoje é um dia incomum. Vim até aqui de propósito para ver se achava essa música. É um cd do Jorge Aragão acho que vou levar esse pra minha esposa. Ela sempre canta essa música de manhã. ... Bom preciso ir. Nos vemos, tchau.”


Ele foi embora e eu fiquei plantado, ainda me reajustando à realidade, até que vi o fone recém-utilizado e ainda tocando um samba desconhecido. Peguei-o e ouvi. A música era Identidade, do Jorge Aragão. Não sei se era realmente essa mesma música que ele ouviu, mas sei que toda vez que a ouço, ele é o primeiro a aparecer em minha mente. Engraçado, um estranho, não sei nem seu nome, mas ele ficou gravado em minha cabeça, junto com essa música, de um ritmo que pouco escuto.




E vocês, caros leitores? Têm alguma música que lembra de alguém? Alguma música os faz lembrar de mim? Deixe seu comentário ...




Assista ao vídeo de Jorge Aragão e a música mencionada


31/08/2010

O Pretérito do Futuro

Queria escrever um poema,
Mas não o fiz.

Tentei organizar em métrica;
Fracassei.

Pensei em modificar o tom,
Porém não trabalhei.

Considerei um novo tema,
Mas não o empreguei.

Achei que bem faria,
No entanto benfeitoria não tem.

Por pouco eu conseguiria,
Mas a única coisa que surgia
É que nada iria acontecer.

Fiquei no “ia”,
Com gente que ria
Da minha agonia
De pensar que alcançaria
Uma certa alegria
De um trabalho tecer.


Quantas vezes o leitor já conjugou nesse tempo verbal? Comente :-)

23/08/2010

Um dia em Silent Hill

Certa vez, acordei em Silent Hill. Sim, aquele do filme macabríssimo baseado em um game igualmente tenebroso.


A noite havia sido turbulenta e curta. Levantei-me da cama e senti que havia algo estranho. Com o nariz e a boca ressecados, fui à cozinha tomar água. Contudo, não foi possível matar a sede pois o conteúdo do copo tinha gosto de cinza.

Apesar de levantar cedo, o céu neste dia único se recusava a clarear. Uma luz penada pairava sobre o ar denso e seco. Algo estava realmente estranho.

Uma sirene, como a dos toques de recolher, foi lançada ao vento; a única coisa que cortou a morbidade silenciosa daquela manhã e apertou meu coração, que aparentava saber que algo sinistro se passava.

Fui até a janela para observar o que estava acontecendo no lado de fora. Será que eu havia realmente sido lançado àquele purgatório de Silent Hill? Não consegui descobrir.

O pouco calor ainda resguardado dentro de minha casa (e talvez a adrenalina acelerando meus pulmões) esfumaçou os vidros, tornando a cena que se passava do lado de fora ainda mais fantasmagórica. Só havia uma coisa a fazer. Teria que ir ver com meus próprios olhos se aquilo que se passava em minha cabeça era real.

Abri a porta, e meu coração quase abriu meu peito. Uma aparente névoa cobria todo meu quintal e além do muro. Dei o primeiro passo para fora de casa e vi que uma nuvem de fuligem subia a cada pé movimentado.

O chão de ardósia não era mais avistado e caso alguma parte estivesse descoberta, era porque algum animal havia passado por lá, deixando uma pegada arrastada, cor de carvão, manchando o piso.

Pensei que o apocalipse documentado em Silent Hill havia invadido minha vizinhança. Talvez mais além. Logo veria os monstros pútridos do filme passando pelo meu portão. Ouvi algo se aproximando.

Mas por uma obra divina, o primeiro carro passou pela minha rua. Logo em seguida veio o ônibus, trazendo também um pouco mais de luz ao dia.

Lembrei que o sinal era da fábrica que fica próximo de meu bairro. Ufa. .. salvo... mas...

O que então explica o gosto de fuligem, a névoa sombria e as cinzas sobre meu quintal?!

Ah.. lá está. No terreno baldio de minha casa e na fazenda no fim de minha rua resolveram aproveitar o tempo de seca para queimar o que não se precisava.

Estava em Silent Hill, mas quem me colocou lá não foi a obra divina ou demoníaca, apenas a mão de alguns vizinhos irresponsáveis e de leis que nunca são aplicadas.

E você, caro leitor, já passou por silent hill ou já passou um dia lá? deixe seu comentário!

02/08/2010

A pintura e a carta (homenagem aos pais)

Estava eu arrumando meus livros e acabei encontrando um caderno já avariado. Era o que eu usava para escrever algumas idéias minhas quando ainda estava no ensino médio, uns oito anos atrás. Dentre esses textos, encontrei uma carta, muito sarcástica, que havia escrito sobre uma das “mancadas” de meu pai comigo.

Apesar das exagerações (típicas de adolescentes), lembrei do motivo que me levou a escrever a tal carta (ele havia utilizado o carro e não tinha posto gasolina novamente), bem como de outros momentos em que ele cometeu “faltas” com seus filhos.

Sobre esse prisma, pensei em como meu pai havia sido “bacana” até minha adolescência e uma achei que a tal carta era digna de um post no meu blog, como uma forma “interessante” de se fazer homenagem a meu progenitor e a tantos outros que sei que já vacilaram com seus filhotes. Queria ver a cara dele quando visse a tal carta aqui neste blog.

Porém, antes de postá-lo tive que dar continuidade em meu serviço.

Fazia tempo que não pintava minha casa (motivo pelo qual estava também arrumando meus livros e etceteras – rituais organizacionais que só quem os faz entende). Lembrei de quando tinha por volta de seis a oito anos de idade e meu pai me mostrava como devia pintar o rodapé de nossa casa em Campo Grande – MS. “Olha só, você coloca o pincel na tinta e depois tem que tirar o excesso, se não, vai pingar tudo no chão”. Depois disso, passamos para a próxima lição, como “esticar” a tinta, afinal, se “esticar” de mais a pintura fica rala e temos que passar mais demãos e se não “esticamos” o suficiente ficam as marcas do pincel na parede. No fim das contas acabei demorando mais do que pensei para realizar o serviço. Como estava enferrujado, tive que fazer força para me recordar dos procedimentos, e junto deles vinham também as memórias.

Lembro que em todas as casas em que morei sempre gostei das cores e do momento em que passávamos juntos “reformando” a casa (sim, acho que meu pai acabou tomando gosto e adotou como hobby – para si e para seus filhos – o trabalho de pintor).

Foi desgastante. Minha parede tem quatro metros de comprimento e mais três de altura. Além do tamanho, encontrei uma rachadura (gigante) no lado direito de minha sala. Me disseram para passar a massa corrida e pronto, mas me recordei do tratamento especial do Sr. Alencar (meu pai). “Primeiro tem que abrir mais a rachadura, senão a massa não entra e depois de um tempo a rachadura aparece de novo”.

Pois bem. Rachaduras remendadas, e a parede lixada e espatulada, faltava somente a pintura em si, e com isso as tintas. Fui à loja de construção para pegar o que precisava.

O atendente parecia não estar de bom humor. Me atendia como se eu já tivesse anunciado que nada compraria. Se fosse minha mãe teria dado meia volta e dito algo sobre “falta de vontade” e “passar fome”. Mas assim como meu “velho”, continuei observando as tintas que me interessavam, como se nada tivesse acontecido. “Rapaiz, ce já usou essa tinta?” perguntei eu e o moço só respondeu que sim. Continuei a fazer perguntas até que consegui encaixar alguma piada. Aos poucos ele foi amolecendo e quase viramos amigos, assim como costuma acontecer com meu pai. Ele me deu um desconto, e ainda me convidou para tomar uma cerveja no boteco próximo qualquer dia.

Queria continuar meu serviço, mas a fome bateu. Como minha esposa não estava, resolvi convidar meu pai para dar uma olhada no que havia feito em minha casa, nas tintas que tinha comprado e aproveitar para fazer aquela Rabada que só eu, ele e meus irmãos comemos. Quem sabe conversar um pouco.

O problema é que ele é meio calado ... e eu também. “Que achou? só tenho que dar os retoques na parte e cima”. “É... tem que resolver isso”. Ficamos um tempo em conversas pequenas como essa. Ele foi para casa e minha esposa chegou. Ela conversou um pouco comigo, falando sobre seu dia e observando a bagunça que eu havia feito. No final da narrativa perguntou “E esses móveis fora do lugar?”. Eu apenas respondi “Eu sei... tem que resolver isso aí”. Fui para cama e dormi.



Ah...é o post... Lembrei da tal carta adolescente só dois dias depois. Se bem que estou o postando para que ninguém fique curioso sobre a tal carta e com raiva deste texto. Mas depois de todo esse serviço em minha casa, não sei por que, a lembrança da carta passou.
eis a carta:
http://videtexto.blogspot.com/2004_07_01_archive.html

Feliz dia dos pais!

E com vocês? Seus pais já deram alguma "mancada" da qual vocês riem juntos hoje em dia? Deixem as suas histórias!!!

26/07/2010

O Sentido de Viver

Para ser considerado ou se sentir vivo... o que é necessário? Será que a razão de existir é realmente o modelo vigente, citado pela ética Protestante?, "Trabalhar duro e ser Produtivo", será que é isso ou a vida deve ser ser o ócio grego dedicado aos deuses, onde o que é obrigatório e faz sentido é somente pensar?
Descartes mesmo falou "se penso logo existo"!...
As vezes, o mundo e suas concepções me deixam confuso...

e o caro leitor... o que pensa sobre o assunto? Será que o capitalismo enxuga nossos pensamentos?

Eis a melhor resposta até o momento... quem sabe mais para frente não fazemos uma discussão. RSRS

Valeu Gisa!! (vc tmb pode deixar sua opinião nos comentários!)
GISA disse...

Acho importante vc fazer algo que goste , unir o trabalho com aquilo que vc gosta, afinal precisamos sobreviver...

05/04/2010

Comparsas

Estava passeando com meu grande amigo no condomínio em que costumávamos morar.


Negro e com grandes orelhas, seu tamanho dava medo aos vizinhos que não o conheciam. Apesar do andar torto e por vezes descompassado, Billy causava as mais diversas emoções aos que nos viam passar pela rua.

Acostumado a andar por todos os quarteirões à vontade, me contentei em somente apreciar a vista privilegiada dos que andam sobre duas pernas seguindo as faixas brancas e, às vezes amarelas. Contudo, meu companheiro, que além de quadrúpede e possivelmente enxergar em preto e branco, só pode sair de prisão sob vigia e, na ocasião, não se sentia satisfeito em apenas apreciar a panorâmica.

Por isso, andando no asfalto, sentia pena de meu companheiro que, acorrentado à minha vontade, era obrigado a me acompanhar. É claro que em certos momentos sua força era maior que minha preguiça e eu resolvia levá-lo (ou deixá-lo me levar) ao local que desejava.

Não gosto disso. É claro que, sendo considerado o único racional da dupla, sou também o detentor da responsabilidade pelas ações de ambos. Por esta mesma razão, me indigno em pensar que o pobre amigo é privado de um trecho maior que 10 m², referentes ao tamanho do quintal de casa, para correr. Penso no porquê não poder levá-lo a praia ou talvez o interior – acho que ele gostaria de visitar Monte Verde.

Por este motivo costumo andar em meio às trilhas de um mini-bosque, presente da lei que obriga os condomínios a terem 10% de área ambiental protegida. Lá, distante de possíveis delatores, quebrei a regra e libertei meu comparsa de sua algema. Ele retribui com grandes corridas e pulos, por vezes buscando minha face para lamber.

O bosque é local ideal para extravasar. Atrás de muros de casas de veraneio abandonadas ao empregados, são raros os olhos que vistoriam a área. Pés raramente sentem este solo também.

A pena é que, particularmente neste dia as exceções ocorreram. Eu fui visto com a guia na mão e meu colega a mais de 10 metros de distância. Ganhei uma advertência do vigia, uma multa do condomínio, a reprovação dos vizinhos medrosos, mas também recebi 10 minutos de boa gratidão do meu melhor amigo!

09/02/2010

Não Temos Todo Tempo do Mundo

Esta é uma homenagem a todos os meus familiares, mais em especial a Ana Lúcia e outros que não podem mais ler este blog, mas que sei que nos vigiam e captam nossos sentimentos.

Não temos Todo Tempo do Mundo




Faz parte da vida, mas dói deixar lembranças cravadas nos outros. É claro, não me causa nenhum arranhão fazer uma pessoa rir, mas ela certamente pode vir a chorar pelo roxo causado.


É como uma bomba relógio ... esperando para explodir no momento mais inoportuno, ou no clímax mais trágico.


Assim, é quando terminamos de passar pela vida na qual deixamos nossa marca em várias pessoas, como aquelas assinaturas no gesso do braço quebrado – a única diferença é que quando o gesso se quebra, os traços são fragmentados e alguns jogado fora.


Acabei de sair do sofá, uma hora depois de me haver sentado. hora dentro da qual mais de 20 anos se passaram em minha cabeça. Várias memórias que agora se juntaram para formar um mosaico de quem acabamos de perder.


Não penso em um ídolo ou ícone de massas. Lembro de alguém que teve seus defeitos; que teve suas qualidades; Que fazia piadas sem graças às vezes, mas que por este fato me fazia rir. Alguém que cantava para mim quando era bebê e depois quando virei criança. Alguém que também vi deixar a adolescência e se tornar adulta e depois mãe.


Ainda me lembro de um momento, logo quando aprendi um pouco de violão naqueles livrinhos cifrados, em que cantava algumas músicas do Legião Urbana, sua banda favorita. Como seus olhos brilhavam. Me enchi de orgulho, mas não foi o meu talento que me havia inflado, e sim o fato de vê-la tão deslumbrada. De repente vi que estava feliz. Não que ela tenha sido o contrário o resto dos dias em que a conheci, mas foi ali que eu percebi o quão pequeno os gestos podem ser e que, por este detalhe, não os notamos.


Mas não foi só isso que ela me ensinou. Me recordo muito bem das aulas de biologia que esta professora dava aos seus sobrinhos.


Ah ... Esquistossomose, protozoários, Tênia Solitária.


Estávamos todos dentro do quarto. Não me lembro bem quais dos meus primos estavam dentro dele. Fato é que as duas camas estavam cheias de crianças com olhos esbugalhados e preocupados com as ações anteriores e repassando sintomas em uma auto-análise. “Será que lavei as mãos depois de sair do banheiro?”, “Será que minha barriga está mais inchada que o normal?”. A aula mais parecia uma roda de fogueira, dessas em que o chefe dos escoteiros conta uma história de terror para apavorar a tropa.


Logo lágrimas borbulhavam do meu irmão, convicto de que havia um hóspede a mais que a comida ingerida dentro de suas vísceras. Enquanto ele chorava, outros riam e ela explicava ao falso hospedeiro que não havia nada extra em sua barriga.


Os assobios durante as falas (uma piada de família), os encontros de família na casa de meu avô. . . . Tantas lembranças e cenas que traziam felicidade agora pesam (como a tênia) na barriga e me dão suspiros. A bomba explodiu.


E quando voltamos ao mundo real, o primeiro sentimento é o do vazio, como daquele espaço onde antes ficava seu brinquedo, que apesar de favorito não o utilizava tanto. Começamos a pensar que deveríamos ter aproveitado mais, passado mais tempo com ele. Recordamos dos melhores momentos, porque são eles que fazem as pessoas.


E agora eu percebo que Renato Russo se enganou, porque apesar se nos acharmos sempre jovens, não temos todo tempo do mundo. Pelos menos agora me parece que tudo voa muito rápido e os adiamentos se tornam eternos.


Mas pensando por outro lado, uma sábia familiar me disse que, uma vez que nos vamos, não levamos livros, mas o pensamento viaja conosco. Sendo assim, talvez ganhemos, enquanto vivos, mais alguns minutos deste mundo para sentir o amargor do arrepender de atos ou a falta deles no passado e, num segundo passo, relembrarmos e degustarmos as boas memórias do passado e fazer aquele que nos deixa saudades viver, por mais alguns instantes, aquele bom momento em nossas recordações.

09/01/2010

Feliz Natal e Ótimo Ano Novo

E ae Gente! Peço desculpas pelos atrasos. Sabe como é.... Natal ... Fim de ano....
Inclusive, este texto era para ter sido postado na época do natal, mas acho que ainda vale para refletir.... Boa Leitura

Solidariedade Fashion

Seu José está feliz, aos 60 anos de idade e sem família, finalmente tinha alguém com quem conversar. Dona Maria senta ao seu lado e lhe faz perguntas, isso quando necessário, afinal, Seu Zé - conhecido como Zelito na época em que fazia parte do clube de remos São Benedito, em 1968 - tem muito a contar.

A festa vai a mil: alguns senhores e senhoras dançam um baião emitido pelo toca cd’s. Outros, com a idade mais avançada, apenas batem palmas e aproveitam dos comes e bebes que uma outra família trouxe.

Os dois estão sentados a direita do salão de festas em dois daqueles bancos de bar que se abrem e fecham e têm alguma marca de cerveja meio apagada na cabeceira. Quando Dona Maria não entende, simplesmente faz um “ahn” encenando uma compreensão do tema. Não há nenhum problema com tal gesto para Zelito, nem para Maria; o que importa é o momento, é saber que alguém diferente lhe emprestara os ouvidos e com amor.

Transcorrendo o olhar ao outro lado da festa duas das visitantes e organizadoras da farra natalina continuam conversando entre si – desde a hora em que chegaram:
“Menina, você não sabe a correria que foi! Ontem eu e Rubens fomos ao Lar da criança, ficamos uma hora lá, depois nós passamos pela sociedade das meninas operárias e ainda deu tempo de passar no abrigo São Jerônimo”, disse uma alta e de nariz empinado.

“Pois Carlos e eu também conseguimos agendar mais três fundações além dessa. É tão bom ajudar essas pessoas”, retrucou a outra.

A festa começa a esfriar, não por culpa dos velhinhos, mas os organizadores já se cansaram, afinal de contas, é difícil preparar tudo aquilo.

Os senhores ainda sorriem exasperados com a animação e a amizade que conseguiu de alguns. Agradecem muitas e muitas vezes.

As duas organizadoras se despedem (conversaram juntas a maior parte do tempo). Trocaram o telefone para que uma ajude a outra nas entidades que conseguirem agendar para o próximo natal, enquanto as coordenadoras e funcionárias do asilo já chamam pelo nome os senhores que precisam voltar para a cama ou tomar algum remédio.

A festa termina, Seu Zelito vai para cama, mas aos poucos o sorriso começa a desaparecer; lembrou-se que tudo aquilo, aquela menina que ouvia sua história não estaria lá no próximo dia. Tentou se alegrar, retomar a positividade de sempre. “Não tem problema!! No próximo natal, eles estarão de volta.”
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     Olá pessoal, gostaria de deixar claro alguns pontos sobre este texto. Estou um pouco preocupado porque talvez tenha escrito demais pelas entrelinhas desta vez (risos).
     Bem, como já tinha dito, acho que qualquer boa ação, por qualquer motivo que seja é bem vinda uma vez que se ajuda outras pessoas. No entanto, a crítica que tentei fazer é com relação ao que as pessoas querem “dar” a quem precisa.  Alguns podem pensar que uma festa com comes e bebes e presentes é tudo o que uma pessoa precisa. Contudo se esquece que as prioridades mudam de acordo com a situação. Quando não se tem ninguém que te ouça acho que um ouvido é o que a pessoa mais gostaria de ter, não é.
    Para explicar a segunda questão da crônica primeiro teria que agradecer a uma família Vinhedence que me convidou, na época em que era jornalista na cidade, a conhecer o trabalho deles no Natal em um asilo do município. Foi através deste contato que eu compreendi um pouco além do que eu conhecia sobre a situação de algumas casas de apoio como esta era.
    ´E vamos ao segundo problema então: Quando nos aproximamos de dadas especiais, como as festas de final de ano, alguns se lembram que existem pessoas necessitadas que talvez não tenham condições de celebrar estas datas com o luxo que a fazemos e, com isso, lembramos de ajudar ao próximo. Contudo, nos esquecemos que a situação que encontramos estes seres humanos quando os ajudamos no Natal ou em outra época é permanente, ou seja, não é algo específico daquele dia. São mais 364 dias da mesma situação, do mesmo perrengue, da mesma fome, da mesma necessidade.
    Desta forma, o meu objetivo (não sei se consegui alcançá-lo com minha crônica, era o de lembrar que devemos auxiliar o outro sempre que que possível e não somente durante épocas especiais. Devemos fazer o que nos é possível fazer para que melhoremos a qualidade de vida dos nossos vizinhos.
    Com isso, novamente bom natal e Feliz Reveillon (atrasados) e feliz outros 364 dias que nos restam para lembrarmos do próximo.

20/07/2004

Carta de Agradecimento a meu Pai

Olá!! Lembrando que não vale ler esta carta sem antes ter lido a crônica postada acima!!. Sem ela este texto não faz sentido (rsrs)


Dia 20 de Julho de 2004 – 3:40 a.m.

Pai,
Muito obrigado por não colocar gasolina no seu carro, afinal de contas, com o preço da gasolina tão alto, temos que economizar se quisermos ter alguma coisa e eu sei que você colocou NA SUA POUPANÇA, o dinheiro que iria para a gasolina, uma vez que você pensa no meu futuro.

E andar de carro para quê se hoje está uma ótima e linda noite de inverno – tudo nublado, empoçado e chuvoso, além do gostoso e gélido vento cortante para se respirar.

Mais que tudo isso, andar de carro é luxúria e luxúria é pecado! Presumo então, pai, que o senhor irá para o céu já que ajudou uma alma PERDIDA como eu. Ai ai... se essas pessoas que espirraram lama em mim enquanto dirigiam seus carros com ar quente e seco soubessem o que as aguarda depois dessa VENTANIA!

Ah, e foi aí que eu descobri o significado do ditado “depois do temporal vem a “BONANÇA”. Essas Palavras fazem imenso sentido para mim agora, mesmo depois que peguei essa pneumoniazinha.

Além disso também pude aproveitar e fazer exercício ao mesmo tempo em que voltava para casa, tanto externa quanto internamente (os sustos que levei no caminho, junto com a impressão de estar sendo seguido realmente fortaleceram meu coração, e a picada – de alguma coisa que não vi – vai me fazer ficar imune. Não é assim que eles fazem vacina e soro antiofídico?!)

Nada como apreciar a paisagem também. Não há coisa mais bonita que o chiado do vento batendo no mato e NO SEU NARIZ “sinusitado”. O breu total, onde não enxergamos aonde pisamos também é uma surpresa total (como você sabia que eu adoro surpresas?!?).

Também, na escuridão em que estive, pude fechar os olhos e praticar a famosa “visão da alma” (que por incrível que pareça funcionou com os olhos abertos também, apesar de não saber de onde veio o cachorro que quase arrancou minha perna).

Pai, do fundo do meu coração eu agradeço por essa incrível lição de economia, ginástica, medicina e percepção (tanto da visão normal quanto a da alma). Assim que puder RETRIBUIREI este presente ...



De seu filho renovado, que precisa de um doador de coração com sangue tipo O positivo,

Thiago Alencar
P.S.: Pai, esta foi uma brincadeira baseada em alguns (totalmente mínimos) fatos reais – leve a sério somente o que for absolutamente verdadeiro, que sei que você sabe discernir.