05/04/2010

Comparsas

Estava passeando com meu grande amigo no condomínio em que costumávamos morar.


Negro e com grandes orelhas, seu tamanho dava medo aos vizinhos que não o conheciam. Apesar do andar torto e por vezes descompassado, Billy causava as mais diversas emoções aos que nos viam passar pela rua.

Acostumado a andar por todos os quarteirões à vontade, me contentei em somente apreciar a vista privilegiada dos que andam sobre duas pernas seguindo as faixas brancas e, às vezes amarelas. Contudo, meu companheiro, que além de quadrúpede e possivelmente enxergar em preto e branco, só pode sair de prisão sob vigia e, na ocasião, não se sentia satisfeito em apenas apreciar a panorâmica.

Por isso, andando no asfalto, sentia pena de meu companheiro que, acorrentado à minha vontade, era obrigado a me acompanhar. É claro que em certos momentos sua força era maior que minha preguiça e eu resolvia levá-lo (ou deixá-lo me levar) ao local que desejava.

Não gosto disso. É claro que, sendo considerado o único racional da dupla, sou também o detentor da responsabilidade pelas ações de ambos. Por esta mesma razão, me indigno em pensar que o pobre amigo é privado de um trecho maior que 10 m², referentes ao tamanho do quintal de casa, para correr. Penso no porquê não poder levá-lo a praia ou talvez o interior – acho que ele gostaria de visitar Monte Verde.

Por este motivo costumo andar em meio às trilhas de um mini-bosque, presente da lei que obriga os condomínios a terem 10% de área ambiental protegida. Lá, distante de possíveis delatores, quebrei a regra e libertei meu comparsa de sua algema. Ele retribui com grandes corridas e pulos, por vezes buscando minha face para lamber.

O bosque é local ideal para extravasar. Atrás de muros de casas de veraneio abandonadas ao empregados, são raros os olhos que vistoriam a área. Pés raramente sentem este solo também.

A pena é que, particularmente neste dia as exceções ocorreram. Eu fui visto com a guia na mão e meu colega a mais de 10 metros de distância. Ganhei uma advertência do vigia, uma multa do condomínio, a reprovação dos vizinhos medrosos, mas também recebi 10 minutos de boa gratidão do meu melhor amigo!