28/03/2011

Crônica: Importância histórica

   Olá caros leitores. Hoje não postarei aqui uma crônica minha. Eu sei, eu sei, ... faz tempo que não posto nada novo por aqui. Contudo, postaremos, SIM, uma crônica, mas antes disso vamos falar sobre ela.
   Uma crônica é (de um modo simplificado e sob a visão deste cronista) é um texto literário opinativo a respeito de algum tema, seja ele a vida, as relações humanas, os conflitos mundiais ou a política.
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   O leitor pode perguntar (assim como eu já o fiz diversas vezes), "qual a importância disso, então?"
   Bem, hoje vou mostrar uma delas: o humor, ou melhor, o termômetro dele à respeito de temas importantes debatidos em determinada época. 
   O texto abaixo é um grande exemplo de tal "medidor", e a encontrei vasculhando a Biblioteca Virtual da UNICAMP a autoria dos outros comentários postados é da Biblioteca Virtual do Estado de São Paulo (vou colocá-los em um post aparte - portanto as opiniões sobre a crônica são minhas mesmo - rsrs) . Vamos ler a crônica de Machado de Assis e depois debateremos mais. O texto é um tanto comprido, então caso queira partir direto para a discussão, leia os primeiros parágrafos e depois vá para o final deste post.


Crônica escrita por Machado de Assis em 19 de maio de 1888 

(Publicada originalmente na Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro) 
Bons dias! 
Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, e juro se necessário for, que toda a história desta Lei de 13 de Maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.
Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro 
melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.

No golpe do meio (coup du milieu, mas eu prefiro falar a minha língua), levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que acompanhando as idéias pregadas por Cristo, há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia a que a nação inteira devia acompanhar as mesmas idéias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus, que os homens não podiam roubar sem pecado. 
Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça, e pediu à ilustre assembléia que correspondesse ao ato que acabava de publicar, brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo; fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo. 

No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza: 
— Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que... 
— Oh! meu senhô! fico. 
— ...Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu 
cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho deste tamanho; hoje 
estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos... 
— Artura não qué dizê nada, não, senhô... 
— Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis; mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha. 
— Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete. 

Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.
Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio; daí para cá, tenho-lhe despedido alguns 
pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo 
filho do Diabo; coisas todas que ele recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre. 

O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes de abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a toda a gente que dele teve notícia; que esse escravo tendo aprendido a ler, escrever e contar, (simples suposição) é então professor de filosofia no Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do Céu. 
Boas noites. 
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Bem, caso não tenham notado, esta crônica foi postada aproximadamente uma semana depois da Lei Áurea ter sido assinada, e quem conhece nosso caro Machado, ser sarcástico era seu forte.

   Enfim, nesta crônica conseguimos ver qual era a percepção de parte das pessoas da época (não digo todas pois um autor nunca agrada a gregos e troianos) sobre o fim da escravidão. Machado, de forma perspicaz, mostra que não adiantava em nada apenas dar liberdade. Muitos outros aspectos eram necessários para que os negros conseguissem ocupar dignamente espaços na sociedade.

   Honestamente, o que eu pensava à respeito deste cenário de 1800 era que simplesmente haviam aqueles à favor da liberdade, e aqueles que se postavam contra e que além disso, livres ou não os (ex)escravos sofriam discriminações e não conseguiam arranjar algo que lhes desse um salário justo. Contudo a situação não era resumida a só isso.

Espero que vocês também deixem suas opiniões sobre o assunto para que, juntos, reflitamos sobre o tema "A importância Histórica das Crônicas". Um abraço e boa semana.
Thiago Alencar



comentários da Biblioteca Virtual sobre a crônica de machado

Embora as crônicas de Machado sejam menos conhecidas do que seus contos e seus
romances, elas acabam sendo uma ótima porta de entrada para aqueles que queiram
conhecer melhor a sua obra, por serem textos mais curtos e por apresentarem o
mesmo estilo inconfundível do autor. A ironia e o desejo de se comunicar diretamente
com o leitor eram recursos amplamente empregados nestes textos que originalmente
eram publicados em diversos jornais do Rio de Janeiro. Machado teria começado a
escrever crônicas aos 20 anos de idade. Não se sabe exatamente quantas foram.
A crônica é um gênero literário caracterizado por ser um relato dos fatos do cotidiano,
revelado e interpretado pelo olhar do cronista. É produzido essencialmente para ser
vinculado em veículos de imprensa (jornais e revistas). No início, as crônicas eram
quase relatos jornalísticos dos fatos da semana e, ao longo do tempo, foram ganhando
vernizes literários. Machado foi um dos precursores, no Brasil, da inserção de
elementos literários em suas crônicas.  
A maioria das crônicas de Machado não possui título, como esta que foi publicada em
19 de maio de 1888. Esta, inclusive, é uma das crônicas mais célebres de Machado.
Através da sua fina ironia e sarcasmo que lhe são peculiares, o autor considera - com
olhos bem críticos e realistas – que a Abolição pouco modificaria a vida dos negros
recém libertos. Note-se que a crônica foi publicada menos de uma semana depois da
assinatura da Lei Áurea. Enquanto os abolicionistas comemoravam ingenuamente a
libertação dos escravos, Machado já antevia que esta nova situação não refletiria em
melhorias: de escravas, as pessoas passariam a ser assalariadas livres sem
condições de se manter com uma vida digna. Nesta crônica, ele vislumbra novas
formas de exploração dos negros.

Machado foi acusado, por alguns críticos, de ser alienado e não se posicionar
politicamente diante dos fatos históricos de seu tempo (principalmente em relação à
discriminação contra os negros). Na verdade, é uma acusação infundada, pois esta
crônica e tantos outros escritos provam que a sua ironia era uma forma de criticar a
hipocrisia e a mediocridade da sociedade do final do Segundo Império e do início da
República.

http://www.bv.sp.gov.br
biblioteca.virtual@sp.gov.br
 Biblioteca Virtual do Governo do Estado de São Paulo


Autoria do texto: Biblioteca Virtual do Governo do Estado de São Paulo

Fontes:
AGUIAR, Luiz Antonio. Almanaque Machado de Assis: vida, obra, curiosidades e bruxarias
literárias. Rio de Janeiro, Record: 2008.
Machado de Assis - Obra completa (projeto realizado pelo Ministério da Educação e a
Universidade Federal de Santa Catarina)
http://portal.mec.gov.br/machado/index.php?option=com_frontpage&Itemid=1
Crônica: um gênero literário
http://www.sitedeliteratura.com/Teoria/cronicas.htm
Machado de Assis – crônicas e a mídia da época: o jornal (artigo de Marta da Piedade Ferreira
– UFMG)
http://www.abralic.org.br/enc2007/anais/26/740.pdf

http://www.bv.sp.gov.br
biblioteca.virtual@sp.gov.br 

05/03/2011

Músicas de Herança

Certa vez, conheci um senhor de idade que trabalhava como zelador em um shopping.
Todo dia, após a refeição, ele passava numa daquelas MEGASTORE’s que vendia de tudo.

O senhor ia direto a sessão de Cd’s, pegava um daqueles fones de ouvido que tocam trechos dos álbuns disponíveis para compras, ouvia algo, e ia embora. Foi numa dessas idas que eu o vi Pela primeira vez.
Eu não trabalhava no shopping, mas estudava próximo do local e, sempre que possível, ia para lá para passear e a megastore sempre foi meu local favorito.

Acho que aquele homem repetindo os mesmos passos umas quatro vezes antes de tomar coragem para começar a conversa e tentar descobrir o motivo do ritual.

Enquanto ele escolhia o que iria ouvir, cheguei próximo, como se estivesse procurando algo da prateleira em frente. A propósito, o tema dos cd’s em minha frente (e também do toca cd’s que o velho fuçava) era heavy metal.

“Nossa, você gosta de rock?”, perguntei olhando de relance para ele e apontando para os cd’s. “Não, não são meus favoritos”, foi a resposta. “O que você está ouvindo?”, “Uhmmm, Avantazía?!, eu acho”, senti que ele estava um pouco incomodado com minha segunda pergunta e resolvi desistir, por enquanto. Haveriam outros encontros.

Da outra vez o encontrei ouvindo pop  e fingi estar perdido na sessão, dei um oi e fiz um comentário daqueles que só saem na pressão e se pudesse, engoliríamos de volta as palavras. “Só no pôperô?”, “É, haha”. Fui embora.

Assim foi até nosso 7 encontro, no qual ele estava ouvindo samba. Resolvi finalmente ir direto ao assunto. “O senhor gosta tanto de música assim?, todo vez vejo o senhor aqui, ouvindo alguma coisa diferente?”
“Na verdade, não, mas gosto de pessoas” ... fiquei do lado dele... pensando na resposta ...
...

Depois de um minuto silencioso e com uma estátua do seu lado, ele resolveu explicar o que ele quis dizer com sua charada.

“Ontem eu estava ouvindo ... Caetano Veloso; normalmente não vejo o nome... escolho algum lugar e ouço alguma coisa que me pareça familiar e geralmente acerto. Esse rapaz (Caetano) me lembra da minha filha mais velha. Ela sempre ouvia essa música quando estava corrigindo provas dos alunos dela. Agora ela está em Pernambuco, casou com um moço de lá.

Semana Passada eu escutei uma música muito barulhenta ... qual era o nome mesmo ?... “lindin Parque”, alguma coisa assim... Eu brigava muito com meu filho caçula por causa disso, Hoje ele mora sozinho. Mora perto de casa, mas tenho saudades do tempo que ele morava comigo. Era uma bagunça só e os vizinhos reclamavam do som alto, mas a casa parecia que tinha mais vida.

Eu pensei por um minuto, absolvendo o conteúdo. “Mas você não tem fotos pra lembrar dessas pessoas?”

“Desses que eu te falei eu tenho fotos sim, mas e de meus ex-colegas, que ouviam sertanejo enquanto nós limpávamos os banheiros? De qualquer forma, não sei se percebeu, mas já estou velho e minha memória não é mais a mesma. Mas quando ouço essas músicas, lembro de como meu sentia em alguns momentos de minha vida, momentos felizes e outros nem tanto. Às vezes lembro até de pessoas que nem sei o nome... que simplesmente passaram por mim e me chamaram atenção, aqui mesmo no shopping. É como se eu revivesse aqueles momentos de novo, entende?”

Mais uma vez fiquei refletindo sobre toda aquela informação, mas dessa vez eu compreendi. E como um estalo, comecei a pensar nas pessoas que já encontrei em minha vida e nas músicas que eles me deixaram de herança. Pessoas com quem trabalhei, Cd’s que me deram, como estava o momento em que tal música tocou ...

Depois de um momento voltei a mim e notei que o senhor me olhava, como se entendesse o que se passava em minha cabeça, sabe, como um professor que percebe quando o aluno absorveu o conteúdo do quadro.

“Então hoje você também está ouvindo algo que não conhece?”, perguntei eu. “Não, hoje é um dia incomum. Vim até aqui de propósito para ver se achava essa música. É um cd do Jorge Aragão acho que vou levar esse pra minha esposa. Ela sempre canta essa música de manhã. ... Bom preciso ir. Nos vemos, tchau.”


Ele foi embora e eu fiquei plantado, ainda me reajustando à realidade, até que vi o fone recém-utilizado e ainda tocando um samba desconhecido. Peguei-o e ouvi. A música era Identidade, do Jorge Aragão. Não sei se era realmente essa mesma música que ele ouviu, mas sei que toda vez que a ouço, ele é o primeiro a aparecer em minha mente. Engraçado, um estranho, não sei nem seu nome, mas ele ficou gravado em minha cabeça, junto com essa música, de um ritmo que pouco escuto.




E vocês, caros leitores? Têm alguma música que lembra de alguém? Alguma música os faz lembrar de mim? Deixe seu comentário ...




Assista ao vídeo de Jorge Aragão e a música mencionada