Olá caros leitores. Hoje não postarei aqui uma crônica minha. Eu sei, eu sei, ... faz tempo que não posto nada novo por aqui. Contudo, postaremos, SIM, uma crônica, mas antes disso vamos falar sobre ela.
Uma crônica é (de um modo simplificado e sob a visão deste cronista) é um texto literário opinativo a respeito de algum tema, seja ele a vida, as relações humanas, os conflitos mundiais ou a política.
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Bem, hoje vou mostrar uma delas: o humor, ou melhor, o termômetro dele à respeito de temas importantes debatidos em determinada época.
O texto abaixo é um grande exemplo de tal "medidor", e a encontrei vasculhando a Biblioteca Virtual da UNICAMP a autoria dos outros comentários postados é da Biblioteca Virtual do Estado de São Paulo (vou colocá-los em um post aparte - portanto as opiniões sobre a crônica são minhas mesmo - rsrs) . Vamos ler a crônica de Machado de Assis e depois debateremos mais. O texto é um tanto comprido, então caso queira partir direto para a discussão, leia os primeiros parágrafos e depois vá para o final deste post.
Crônica escrita por Machado de Assis em 19 de maio de 1888
(Publicada originalmente na Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro)
Bons dias!
Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, e juro se necessário for, que toda a história desta Lei de 13 de Maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.
Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro
melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.
No golpe do meio (coup du milieu, mas eu prefiro falar a minha língua), levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que acompanhando as idéias pregadas por Cristo, há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia a que a nação inteira devia acompanhar as mesmas idéias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus, que os homens não podiam roubar sem pecado.
Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça, e pediu à ilustre assembléia que correspondesse ao ato que acabava de publicar, brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo; fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.
No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:
— Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que...
— Oh! meu senhô! fico.
— ...Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu
cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho deste tamanho; hoje
estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos...
— Artura não qué dizê nada, não, senhô...
— Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis; mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.
— Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.
Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.
Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio; daí para cá, tenho-lhe despedido alguns
pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo
filho do Diabo; coisas todas que ele recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.
O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes de abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a toda a gente que dele teve notícia; que esse escravo tendo aprendido a ler, escrever e contar, (simples suposição) é então professor de filosofia no Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do Céu.
Boas noites.
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Bem, caso não tenham notado, esta crônica foi postada aproximadamente uma semana depois da Lei Áurea ter sido assinada, e quem conhece nosso caro Machado, ser sarcástico era seu forte. Enfim, nesta crônica conseguimos ver qual era a percepção de parte das pessoas da época (não digo todas pois um autor nunca agrada a gregos e troianos) sobre o fim da escravidão. Machado, de forma perspicaz, mostra que não adiantava em nada apenas dar liberdade. Muitos outros aspectos eram necessários para que os negros conseguissem ocupar dignamente espaços na sociedade. Honestamente, o que eu pensava à respeito deste cenário de 1800 era que simplesmente haviam aqueles à favor da liberdade, e aqueles que se postavam contra e que além disso, livres ou não os (ex)escravos sofriam discriminações e não conseguiam arranjar algo que lhes desse um salário justo. Contudo a situação não era resumida a só isso. Espero que vocês também deixem suas opiniões sobre o assunto para que, juntos, reflitamos sobre o tema "A importância Histórica das Crônicas". Um abraço e boa semana. Thiago Alencar |

