18/12/2009

A Sentença

Balança o tempo no pêndulo das horas e conta junto com o cuco.
- “Já são onze, meu Deus!!! ... O maldito Basílio ainda nem ficou com a tal da prima Luiza e a prova é amanhã!!”

As horas continuam tocando o gongo para o escravo: tom . . . . tom . . . . tom . . . . tom . . . . Sofreguidão. Como pode um livro causar tanta dor?!

Já vi casos de garotos se cortarem na lâmina afiada das páginas, mas nunca soube que as palavras e as frases, orações, períodos e parágrafos tivessem tamanho veneno.

Jorginho continuava a auto-tortura; Se contorce na cadeira; vira e desvira, contando as páginas que faltam.

O sono já o consome ...... o tempo o toma aos goles .......e as letras diminuem ... a ...... cadaaaaa-aaawwwnn ... bocejo...............................................................
Boi, boi, boi, boi da cara preta ...................... os olhos cerram-se ......... mas acordam assustados: “Não, Não. Não dá pra dormir, a prova é amanhã!!”

Corre nas páginas em brasa até queimar os olhos:
- “QUE LIVRO DO CAPETA!!” É página infinita, é fogo e queima a alma.
- “Qual foi meu pecado?!!?” Mas pecado pra quê? Tortura não pede pecado, basta um juiz que dê a sentença!

Pobre Jorginho, réu da corte de literatura, sob a pena de ler um livro. E o coitado não tem mais que doze anos. Na sua bagagem de experiências literárias, Jorginho tem somente os livros que lhe foram empurrados guela abaixo pela professora-juiz.

“Deviam proibir livro pra menores de 18 anos!!!” E chora o menino com a retina e alma irritadas.
Ele pára a queixa e continua a cumprir sua sentença até que o capitulo fica pesado demais para as pálpebras.

Dez minutos depois ele dorme sobre o livro e tem um sonho turbulento, no qual a professora tem um caso com o primo Basílio.

Enquanto isso, Julinha, estudante, da mesma idade que Jorginho, dorme tranqüila e confortável – debaixo dos cobertores em sua cama – sonhando que está brincando com a raposa enquanto o Pequeno Príncipe faz para ela um colar de flores. Ela sorri!!!

11/12/2009

Nova droga conectada

O maluco chega do nada... vai vagarosamente ao local. Chega de fininho e dá uma olhada pra trás, pra ver se não tem ninguém vendo. Pensa consigo mesmo “É a última vez... é a ultima vez... é só pra acalmar os ânimos".
Sujeito estranho, olhos fundos e vermelhos. Tinha um tique nos ombros e os repuxava freqüentemente, isso quando esquecia das mãos que esfregava com força e a quase todo momento. A cara era pálida como se tivesse visto um fantasma, mas era ele que parecia um àquela hora da noite andando pelos cantos com se fugisse da já fraca luz dos poucos postes da rua mal iluminada.
Apertou o botão do interfone e o portão de aço se abriu fazendo um barulho estridente e chato, comum de todos os portões automáticos. Ele entrou rápido e fechou a grade, encostando-se no canto da parede como se estivesse inseguro do que estava prestes a fazer. “Melhor ir embora”, pensou. “Se alguém conhecido me vir por aqui eu to ferrado em casa”. Apesar da consciência pesada, ele a carregou a duros passos pela escada até a entrada que dava de cara para um balcão onde um rapaz corpulento e de cabelo ralo estava apoiado do lado de dentro.
“Quanto você quer?” questionou o homem forte de trás do balcão que repetiu a pergunta ao ver que o franzino pálido de olhos fundos demorava a responder. “Vinte.... não trinta”, disse com uma voz rouca e medrosa ao mesmo tempo em que olhava ao redor. O local era mal iluminado mas estava cheio. Duas longas mesas cortavam o estabelecimento de fora a fora. Uma ficava encostada à parede do fundo do local. A outra dividia a sala em dois na vertical. De qualquer forma, várias pessoas estavam sentadas em cadeiras azuis (aparentemente confortáveis).
“Tem senha?”, perguntou o rapaz do balcão, que de perto não parecia ser tão velho. Deveria ter lá seus 25 anos, mas não era isso que importava para o outro que atritava freneticamente as mãos, tentando consolá-las. “Vinte sete, meia nove”, respondeu secamente. “Ok, o seu é o número sete, já está contando o tempo”.
Como se tirasse uma mochila lotada de pedras das costas, uma pequena luz abriu em sua cara. Correu ao local indicado. A curvatura da coluna continuava a mesma mas se encaixava perfeitamente na cadeira azul. Colocou o fone de ouvido e se transformou, em um simples mexer de mãos sobre o teclado, em um cavaleiro musculoso e bronzeado. Paquerava as meninas élficas e contava suas grandes aventuras no mundo três de ‘elflindglóing’ (sic.) onde ele conseguiu a façanha de destruir o demônio do mal e ganhar seis pontos de coragem.
O tempo acaba. O computador desliga automaticamente, junto com a luz de felicidade (ou será a luz da tela do monitor?) que iluminava sua carinha quase translúcida. Ele se levantou, pagou o que devia com o dinheiro que economizou não tomando o ônibus (ida e volta) e foi andando para casa, a uns sete quarteirões da lan house. Sozinho.