Faz um tempinho que não coloco nada novo no ar, mas já estava com essa idéia na cabeça há algum tempo. Como disse no início do meu blog, tentaria enquadrar os textos postados aqui dentro do gênero "crônica". No entanto, é muito difícil achar uma definição a este termo de forma a ser aceito em unanimidade. Por isso, sempre que possível irei postar aqui textos que também tentem explicar o que é esta "coisa" chamada "crônica".Eis um dos primeiros textos que encontrei sobre esta forma de narrativa. Espero que postem seus comentários a respeito da pergunta do título.
Thiago Alencar
Crônica, um gênero brasileiro
José Castello
Nas fronteiras longínquas da literatura, ali onde os gêneros se esfumam, as certezas vacilam e os cânones se esfarelam, resiste a crônica. Nem todos os escritores se arriscam a experimentá-Ia, e os que o fazem se expõem, muitas vezes, a uma difusa desconfiança. Para os puristas, a crônica e um "gênero menor". Para outros, ainda mais desconfiados, não é literatura, é jornalismo - o que significa dizer, simples registro documental. Alguns acreditam que ela seja um gênero de circunstância, datado - oportunista. Não é fácil praticar a crônica.
Definida pelo dicionário como "narração histórica, ou registro de fatos comuns", a crônica ocupa um espaço fronteiriço, entre a grandeza da história e a leveza atribuída à vida cotidiana. Posição instável, e nem um pouco cômoda, em que a segurança oferecida pelos gêneros literários já não funciona. Lugar para quem prefere se arriscar, em vez de repetir. A crônica confunde porque está onde não devia estar: nos jornais, nas revistas e até na televisão - e nem sempre nos livros. Literatura ou jornalismo? Invenção, ou uma simples (e literal) fotografia da existência? Coisa séria, ou puro entretenimento?
Supõe-se, em geral, que os cronistas digam a verdade - seja o que se entenda por verdade. Não só porque crônicas são publicadas na imprensa, lugar dos fatos, das notícias e da matéria bruta, mas também porque elas costumam ser narradas na primeira pessoa, e o Eu sempre evoca a idéia de confissão. E ainda porque vêm adornadas, com freqüência, pela fotografia (verdadeira!) de seu autor.
Então, se o cronista diz que foi a padaria, ou que esteve em uma festa, aquilo deve, de fato, ter acontecido, o leitor se apressa a concluir. É uma suposição antiga, que vem dos tempos do Descobrimento, quando os cronistas foram aqueles que primeiro transformaram em palavras a visão do Novo Mundo. Cronistas eram, então, missivistas empenhados em dizer a verdade, retratistas do real.
Contudo, e esse é seu grande problema, mas também sua grande riqueza, a crônica e um gênero literário. Não é ficção, não é poesia, não é critica, e nem ensaio, ou teoria - é crônica. As crônicas históricas do passado, relatos de viajantes e de aventureiros, pretendiam ser apenas um "relato de viagem". Aproximavam-se, assim, do inventário, do registro histórico e do retrato pessoal, e ainda da correspondência. Essas narrativas estavam mais ligadas a história que a literatura. Tinham, antes de tudo, um caráter utilitário, pragmático: serviam para transmitir aquilo que se viu.
No século XIX, com a sofisticação dos estudos históricos, e também com a expansão da imprensa, a crônica se afastou do registro factual e se aproximou da literatura e da invenção. Nossos primeiros grandes cronistas - Alencar, Machado, Bilac, João do Rio - foram, antes de tudo, grandes escritores. Eles descobriram na crônica o frescor do impreciso e o valor do transitório. E a praticaram com regularidade e empenho.
(retirado da revista NORTE - Cultura no sul do mundo da Arquipélago Editorial - edição de Dezembro/ Novembro 2007)

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