Certa vez, conheci um senhor de idade que trabalhava como zelador em um shopping.
Todo dia, após a refeição, ele passava numa daquelas MEGASTORE’s que vendia de tudo.
O senhor ia direto a sessão de Cd’s, pegava um daqueles fones de ouvido que tocam trechos dos álbuns disponíveis para compras, ouvia algo, e ia embora. Foi numa dessas idas que eu o vi Pela primeira vez.
Eu não trabalhava no shopping, mas estudava próximo do local e, sempre que possível, ia para lá para passear e a megastore sempre foi meu local favorito.
Acho que aquele homem repetindo os mesmos passos umas quatro vezes antes de tomar coragem para começar a conversa e tentar descobrir o motivo do ritual.
Enquanto ele escolhia o que iria ouvir, cheguei próximo, como se estivesse procurando algo da prateleira em frente. A propósito, o tema dos cd’s em minha frente (e também do toca cd’s que o velho fuçava) era heavy metal.
“Nossa, você gosta de rock?”, perguntei olhando de relance para ele e apontando para os cd’s. “Não, não são meus favoritos”, foi a resposta. “O que você está ouvindo?”, “Uhmmm, Avantazía?!, eu acho”, senti que ele estava um pouco incomodado com minha segunda pergunta e resolvi desistir, por enquanto. Haveriam outros encontros.
Da outra vez o encontrei ouvindo pop e fingi estar perdido na sessão, dei um oi e fiz um comentário daqueles que só saem na pressão e se pudesse, engoliríamos de volta as palavras. “Só no pôperô?”, “É, haha”. Fui embora.
Assim foi até nosso 7 encontro, no qual ele estava ouvindo samba. Resolvi finalmente ir direto ao assunto. “O senhor gosta tanto de música assim?, todo vez vejo o senhor aqui, ouvindo alguma coisa diferente?”
“Na verdade, não, mas gosto de pessoas” ... fiquei do lado dele... pensando na resposta ...
...
Depois de um minuto silencioso e com uma estátua do seu lado, ele resolveu explicar o que ele quis dizer com sua charada.
“Ontem eu estava ouvindo ... Caetano Veloso; normalmente não vejo o nome... escolho algum lugar e ouço alguma coisa que me pareça familiar e geralmente acerto. Esse rapaz (Caetano) me lembra da minha filha mais velha. Ela sempre ouvia essa música quando estava corrigindo provas dos alunos dela. Agora ela está em Pernambuco, casou com um moço de lá.
Semana Passada eu escutei uma música muito barulhenta ... qual era o nome mesmo ?... “lindin Parque”, alguma coisa assim... Eu brigava muito com meu filho caçula por causa disso, Hoje ele mora sozinho. Mora perto de casa, mas tenho saudades do tempo que ele morava comigo. Era uma bagunça só e os vizinhos reclamavam do som alto, mas a casa parecia que tinha mais vida.
Eu pensei por um minuto, absolvendo o conteúdo. “Mas você não tem fotos pra lembrar dessas pessoas?”
“Desses que eu te falei eu tenho fotos sim, mas e de meus ex-colegas, que ouviam sertanejo enquanto nós limpávamos os banheiros? De qualquer forma, não sei se percebeu, mas já estou velho e minha memória não é mais a mesma. Mas quando ouço essas músicas, lembro de como meu sentia em alguns momentos de minha vida, momentos felizes e outros nem tanto. Às vezes lembro até de pessoas que nem sei o nome... que simplesmente passaram por mim e me chamaram atenção, aqui mesmo no shopping. É como se eu revivesse aqueles momentos de novo, entende?”
Mais uma vez fiquei refletindo sobre toda aquela informação, mas dessa vez eu compreendi. E como um estalo, comecei a pensar nas pessoas que já encontrei em minha vida e nas músicas que eles me deixaram de herança. Pessoas com quem trabalhei, Cd’s que me deram, como estava o momento em que tal música tocou ...
Depois de um momento voltei a mim e notei que o senhor me olhava, como se entendesse o que se passava em minha cabeça, sabe, como um professor que percebe quando o aluno absorveu o conteúdo do quadro.
“Então hoje você também está ouvindo algo que não conhece?”, perguntei eu. “Não, hoje é um dia incomum. Vim até aqui de propósito para ver se achava essa música. É um cd do Jorge Aragão acho que vou levar esse pra minha esposa. Ela sempre canta essa música de manhã. ... Bom preciso ir. Nos vemos, tchau.”
Ele foi embora e eu fiquei plantado, ainda me reajustando à realidade, até que vi o fone recém-utilizado e ainda tocando um samba desconhecido. Peguei-o e ouvi. A música era Identidade, do Jorge Aragão. Não sei se era realmente essa mesma música que ele ouviu, mas sei que toda vez que a ouço, ele é o primeiro a aparecer em minha mente. Engraçado, um estranho, não sei nem seu nome, mas ele ficou gravado em minha cabeça, junto com essa música, de um ritmo que pouco escuto.
E vocês, caros leitores? Têm alguma música que lembra de alguém? Alguma música os faz lembrar de mim? Deixe seu comentário ...
Assista ao vídeo de Jorge Aragão e a música mencionada


"Pessoas são música!". Não me lembro quem citou isso, mas eu não esqueço!
ResponderExcluirHá tantas músicas que me remetem às pessoas que passaram pela minha vida, ou que continuam nela. Pai, mãe, irmão, ex-namorado, amigos, vô, tia.. vishhh!!!
Acho que não tem uma música que me remeta a vc, Thi! =( Que coisa viu! Pelo menos não que eu me lembre agora...
Adorei o post! Saudades!
Beijos
Hahaha, valeu pelo comentário e que bom que você gostou!!! "Pessoas são música", também não conheço quem disse isso, mas concordo plenamente!!! :-)
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