Como o dia dos pais se aproxima, a professora de filosofia de uma escola particular resolveu deixar de lado o estudo de filósofos antigos e incitar nos alunos, de forma indireta, o amor que eles sentem pelo progenitor. A professora explica que vão falar sobre uma pessoa muito próxima delas e a idéia é que eles analisem o quanto gostam desse cara, mas sem citar os nomes ou o grau de familiaridade. Depois, todos devem escrever um cartão para a figura da charada.
“Eduardo, o que a pessoa mais importante do mundo para você fez por você?”
“Bem, professora”, responde, em uma voz baixa, o aluno mais quieto da sala depois de pensar um pouco ... “ele me fez perceber quem eu sou, me ajudou a ficar de bem comigo mesmo!!”
“Nossa Eduardo, que ótima definição!!!”, disse a professora satisfeita com o rumo da conversa. “Bruno, sobre essa pessoa importante para você, o que você mais gosta nela?”
“Ummm, ele está sempre preocupado comigo”, responde o menino de aparelho nos dentes. “Mesmo quando a gente não tá junto, ele me liga pra saber como estou”.
“Perfeito, Bruno!”, respondeu a professora com todos os dentes a mostra, exacerbando felicidade. “Ok. Fernanda, o que essa pessoa te ensinou de mais importante?” A menina mais alta da sala respondeu sem titubear:
“Que não podemos desistir! Que temos que ter garra para alcançar a nossa meta!”
A professora já não conseguia conter a empolgação e a turma também entrou no clima. Os alunos já não se sentiam acanhados em responder às perguntas.
E assim foi com mais algumas perguntas e respostas extasiantes para a orientadora da atividade. Ao final ela então pediu para que todos se preparassem para dizer, em uma só vez quem é essa pessoa tão importante.
A professora já conseguia ouvir em sua mente o som uníssono de vozes adolescentes declamando a resposta óbvia da charada. Contudo, o que se escutou foram palavras e mais palavras fundidas em alto tom que depois sumiram no silêncio da sala.
Perplexa, a professora repassa em sua mente o que pode captar. “Todos Erraram?!” “Eduardo, quem é a sua pessoa importante?” “meu psicólogo”, disse o garoto envergonhado. “Ele me ajudou bastante na minha... timidez”.
A menina alta também levanta a mão para responder sobre a sua: “O meu é o técnico do time de vôlei. Ele sempre fala pra gente buscar até o último ponto”.
“E o seu Bruno, quem sempre se preocupa com você?”; “Meu dentista?”, disse o garoto já inseguro devido ao clima de perplexidade na sala.
O sinal bate. A professora pede para a classe que pensem em casa um pouco mais e que façam o cartão. “Uma última dica: tem uma data comemorativa para essa pessoa ainda essa semana!”
Na aula seguinte, a professora descobre que eles copiaram do Google, uma frase bonita para dar a algum cardiologista (profissão que alguns não sabiam direito o que era). Somente um veio conversar e mostrar o cartão pessoalmente. “Era esse que você queria que a gente respondesse?”. Na face do cartão estava escrito: Feliz dia dos Pais.
A professora respondeu com entusiasmo que a resposta estava certa. O garoto, que usava um tênis mais simples que os demais, retrucou, antes que a professora o elogiasse. “Pra eles, você deveria ter também dito que é aquele que compra tudo que eles querem”.
A professora devolveu o cartão e Ele foi embora, anotando algo a mais dentro do bilhete.
“Obrigado pai por ter me criado.
Esse é um presente que poucos dão aos seus filhos hoje em dia.”
Ele sabe que seu pai vai se atrasar de novo, pois sempre tem trabalho a terminar. Mas é o pai dele quem o leva para casa e vai perguntar sobre o seu dia.

