09/02/2010

Não Temos Todo Tempo do Mundo

Esta é uma homenagem a todos os meus familiares, mais em especial a Ana Lúcia e outros que não podem mais ler este blog, mas que sei que nos vigiam e captam nossos sentimentos.

Não temos Todo Tempo do Mundo




Faz parte da vida, mas dói deixar lembranças cravadas nos outros. É claro, não me causa nenhum arranhão fazer uma pessoa rir, mas ela certamente pode vir a chorar pelo roxo causado.


É como uma bomba relógio ... esperando para explodir no momento mais inoportuno, ou no clímax mais trágico.


Assim, é quando terminamos de passar pela vida na qual deixamos nossa marca em várias pessoas, como aquelas assinaturas no gesso do braço quebrado – a única diferença é que quando o gesso se quebra, os traços são fragmentados e alguns jogado fora.


Acabei de sair do sofá, uma hora depois de me haver sentado. hora dentro da qual mais de 20 anos se passaram em minha cabeça. Várias memórias que agora se juntaram para formar um mosaico de quem acabamos de perder.


Não penso em um ídolo ou ícone de massas. Lembro de alguém que teve seus defeitos; que teve suas qualidades; Que fazia piadas sem graças às vezes, mas que por este fato me fazia rir. Alguém que cantava para mim quando era bebê e depois quando virei criança. Alguém que também vi deixar a adolescência e se tornar adulta e depois mãe.


Ainda me lembro de um momento, logo quando aprendi um pouco de violão naqueles livrinhos cifrados, em que cantava algumas músicas do Legião Urbana, sua banda favorita. Como seus olhos brilhavam. Me enchi de orgulho, mas não foi o meu talento que me havia inflado, e sim o fato de vê-la tão deslumbrada. De repente vi que estava feliz. Não que ela tenha sido o contrário o resto dos dias em que a conheci, mas foi ali que eu percebi o quão pequeno os gestos podem ser e que, por este detalhe, não os notamos.


Mas não foi só isso que ela me ensinou. Me recordo muito bem das aulas de biologia que esta professora dava aos seus sobrinhos.


Ah ... Esquistossomose, protozoários, Tênia Solitária.


Estávamos todos dentro do quarto. Não me lembro bem quais dos meus primos estavam dentro dele. Fato é que as duas camas estavam cheias de crianças com olhos esbugalhados e preocupados com as ações anteriores e repassando sintomas em uma auto-análise. “Será que lavei as mãos depois de sair do banheiro?”, “Será que minha barriga está mais inchada que o normal?”. A aula mais parecia uma roda de fogueira, dessas em que o chefe dos escoteiros conta uma história de terror para apavorar a tropa.


Logo lágrimas borbulhavam do meu irmão, convicto de que havia um hóspede a mais que a comida ingerida dentro de suas vísceras. Enquanto ele chorava, outros riam e ela explicava ao falso hospedeiro que não havia nada extra em sua barriga.


Os assobios durante as falas (uma piada de família), os encontros de família na casa de meu avô. . . . Tantas lembranças e cenas que traziam felicidade agora pesam (como a tênia) na barriga e me dão suspiros. A bomba explodiu.


E quando voltamos ao mundo real, o primeiro sentimento é o do vazio, como daquele espaço onde antes ficava seu brinquedo, que apesar de favorito não o utilizava tanto. Começamos a pensar que deveríamos ter aproveitado mais, passado mais tempo com ele. Recordamos dos melhores momentos, porque são eles que fazem as pessoas.


E agora eu percebo que Renato Russo se enganou, porque apesar se nos acharmos sempre jovens, não temos todo tempo do mundo. Pelos menos agora me parece que tudo voa muito rápido e os adiamentos se tornam eternos.


Mas pensando por outro lado, uma sábia familiar me disse que, uma vez que nos vamos, não levamos livros, mas o pensamento viaja conosco. Sendo assim, talvez ganhemos, enquanto vivos, mais alguns minutos deste mundo para sentir o amargor do arrepender de atos ou a falta deles no passado e, num segundo passo, relembrarmos e degustarmos as boas memórias do passado e fazer aquele que nos deixa saudades viver, por mais alguns instantes, aquele bom momento em nossas recordações.

09/01/2010

Feliz Natal e Ótimo Ano Novo

E ae Gente! Peço desculpas pelos atrasos. Sabe como é.... Natal ... Fim de ano....
Inclusive, este texto era para ter sido postado na época do natal, mas acho que ainda vale para refletir.... Boa Leitura

Solidariedade Fashion

Seu José está feliz, aos 60 anos de idade e sem família, finalmente tinha alguém com quem conversar. Dona Maria senta ao seu lado e lhe faz perguntas, isso quando necessário, afinal, Seu Zé - conhecido como Zelito na época em que fazia parte do clube de remos São Benedito, em 1968 - tem muito a contar.

A festa vai a mil: alguns senhores e senhoras dançam um baião emitido pelo toca cd’s. Outros, com a idade mais avançada, apenas batem palmas e aproveitam dos comes e bebes que uma outra família trouxe.

Os dois estão sentados a direita do salão de festas em dois daqueles bancos de bar que se abrem e fecham e têm alguma marca de cerveja meio apagada na cabeceira. Quando Dona Maria não entende, simplesmente faz um “ahn” encenando uma compreensão do tema. Não há nenhum problema com tal gesto para Zelito, nem para Maria; o que importa é o momento, é saber que alguém diferente lhe emprestara os ouvidos e com amor.

Transcorrendo o olhar ao outro lado da festa duas das visitantes e organizadoras da farra natalina continuam conversando entre si – desde a hora em que chegaram:
“Menina, você não sabe a correria que foi! Ontem eu e Rubens fomos ao Lar da criança, ficamos uma hora lá, depois nós passamos pela sociedade das meninas operárias e ainda deu tempo de passar no abrigo São Jerônimo”, disse uma alta e de nariz empinado.

“Pois Carlos e eu também conseguimos agendar mais três fundações além dessa. É tão bom ajudar essas pessoas”, retrucou a outra.

A festa começa a esfriar, não por culpa dos velhinhos, mas os organizadores já se cansaram, afinal de contas, é difícil preparar tudo aquilo.

Os senhores ainda sorriem exasperados com a animação e a amizade que conseguiu de alguns. Agradecem muitas e muitas vezes.

As duas organizadoras se despedem (conversaram juntas a maior parte do tempo). Trocaram o telefone para que uma ajude a outra nas entidades que conseguirem agendar para o próximo natal, enquanto as coordenadoras e funcionárias do asilo já chamam pelo nome os senhores que precisam voltar para a cama ou tomar algum remédio.

A festa termina, Seu Zelito vai para cama, mas aos poucos o sorriso começa a desaparecer; lembrou-se que tudo aquilo, aquela menina que ouvia sua história não estaria lá no próximo dia. Tentou se alegrar, retomar a positividade de sempre. “Não tem problema!! No próximo natal, eles estarão de volta.”
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     Olá pessoal, gostaria de deixar claro alguns pontos sobre este texto. Estou um pouco preocupado porque talvez tenha escrito demais pelas entrelinhas desta vez (risos).
     Bem, como já tinha dito, acho que qualquer boa ação, por qualquer motivo que seja é bem vinda uma vez que se ajuda outras pessoas. No entanto, a crítica que tentei fazer é com relação ao que as pessoas querem “dar” a quem precisa.  Alguns podem pensar que uma festa com comes e bebes e presentes é tudo o que uma pessoa precisa. Contudo se esquece que as prioridades mudam de acordo com a situação. Quando não se tem ninguém que te ouça acho que um ouvido é o que a pessoa mais gostaria de ter, não é.
    Para explicar a segunda questão da crônica primeiro teria que agradecer a uma família Vinhedence que me convidou, na época em que era jornalista na cidade, a conhecer o trabalho deles no Natal em um asilo do município. Foi através deste contato que eu compreendi um pouco além do que eu conhecia sobre a situação de algumas casas de apoio como esta era.
    ´E vamos ao segundo problema então: Quando nos aproximamos de dadas especiais, como as festas de final de ano, alguns se lembram que existem pessoas necessitadas que talvez não tenham condições de celebrar estas datas com o luxo que a fazemos e, com isso, lembramos de ajudar ao próximo. Contudo, nos esquecemos que a situação que encontramos estes seres humanos quando os ajudamos no Natal ou em outra época é permanente, ou seja, não é algo específico daquele dia. São mais 364 dias da mesma situação, do mesmo perrengue, da mesma fome, da mesma necessidade.
    Desta forma, o meu objetivo (não sei se consegui alcançá-lo com minha crônica, era o de lembrar que devemos auxiliar o outro sempre que que possível e não somente durante épocas especiais. Devemos fazer o que nos é possível fazer para que melhoremos a qualidade de vida dos nossos vizinhos.
    Com isso, novamente bom natal e Feliz Reveillon (atrasados) e feliz outros 364 dias que nos restam para lembrarmos do próximo.

18/12/2009

A Sentença

Balança o tempo no pêndulo das horas e conta junto com o cuco.
- “Já são onze, meu Deus!!! ... O maldito Basílio ainda nem ficou com a tal da prima Luiza e a prova é amanhã!!”

As horas continuam tocando o gongo para o escravo: tom . . . . tom . . . . tom . . . . tom . . . . Sofreguidão. Como pode um livro causar tanta dor?!

Já vi casos de garotos se cortarem na lâmina afiada das páginas, mas nunca soube que as palavras e as frases, orações, períodos e parágrafos tivessem tamanho veneno.

Jorginho continuava a auto-tortura; Se contorce na cadeira; vira e desvira, contando as páginas que faltam.

O sono já o consome ...... o tempo o toma aos goles .......e as letras diminuem ... a ...... cadaaaaa-aaawwwnn ... bocejo...............................................................
Boi, boi, boi, boi da cara preta ...................... os olhos cerram-se ......... mas acordam assustados: “Não, Não. Não dá pra dormir, a prova é amanhã!!”

Corre nas páginas em brasa até queimar os olhos:
- “QUE LIVRO DO CAPETA!!” É página infinita, é fogo e queima a alma.
- “Qual foi meu pecado?!!?” Mas pecado pra quê? Tortura não pede pecado, basta um juiz que dê a sentença!

Pobre Jorginho, réu da corte de literatura, sob a pena de ler um livro. E o coitado não tem mais que doze anos. Na sua bagagem de experiências literárias, Jorginho tem somente os livros que lhe foram empurrados guela abaixo pela professora-juiz.

“Deviam proibir livro pra menores de 18 anos!!!” E chora o menino com a retina e alma irritadas.
Ele pára a queixa e continua a cumprir sua sentença até que o capitulo fica pesado demais para as pálpebras.

Dez minutos depois ele dorme sobre o livro e tem um sonho turbulento, no qual a professora tem um caso com o primo Basílio.

Enquanto isso, Julinha, estudante, da mesma idade que Jorginho, dorme tranqüila e confortável – debaixo dos cobertores em sua cama – sonhando que está brincando com a raposa enquanto o Pequeno Príncipe faz para ela um colar de flores. Ela sorri!!!

11/12/2009

Nova droga conectada

O maluco chega do nada... vai vagarosamente ao local. Chega de fininho e dá uma olhada pra trás, pra ver se não tem ninguém vendo. Pensa consigo mesmo “É a última vez... é a ultima vez... é só pra acalmar os ânimos".
Sujeito estranho, olhos fundos e vermelhos. Tinha um tique nos ombros e os repuxava freqüentemente, isso quando esquecia das mãos que esfregava com força e a quase todo momento. A cara era pálida como se tivesse visto um fantasma, mas era ele que parecia um àquela hora da noite andando pelos cantos com se fugisse da já fraca luz dos poucos postes da rua mal iluminada.
Apertou o botão do interfone e o portão de aço se abriu fazendo um barulho estridente e chato, comum de todos os portões automáticos. Ele entrou rápido e fechou a grade, encostando-se no canto da parede como se estivesse inseguro do que estava prestes a fazer. “Melhor ir embora”, pensou. “Se alguém conhecido me vir por aqui eu to ferrado em casa”. Apesar da consciência pesada, ele a carregou a duros passos pela escada até a entrada que dava de cara para um balcão onde um rapaz corpulento e de cabelo ralo estava apoiado do lado de dentro.
“Quanto você quer?” questionou o homem forte de trás do balcão que repetiu a pergunta ao ver que o franzino pálido de olhos fundos demorava a responder. “Vinte.... não trinta”, disse com uma voz rouca e medrosa ao mesmo tempo em que olhava ao redor. O local era mal iluminado mas estava cheio. Duas longas mesas cortavam o estabelecimento de fora a fora. Uma ficava encostada à parede do fundo do local. A outra dividia a sala em dois na vertical. De qualquer forma, várias pessoas estavam sentadas em cadeiras azuis (aparentemente confortáveis).
“Tem senha?”, perguntou o rapaz do balcão, que de perto não parecia ser tão velho. Deveria ter lá seus 25 anos, mas não era isso que importava para o outro que atritava freneticamente as mãos, tentando consolá-las. “Vinte sete, meia nove”, respondeu secamente. “Ok, o seu é o número sete, já está contando o tempo”.
Como se tirasse uma mochila lotada de pedras das costas, uma pequena luz abriu em sua cara. Correu ao local indicado. A curvatura da coluna continuava a mesma mas se encaixava perfeitamente na cadeira azul. Colocou o fone de ouvido e se transformou, em um simples mexer de mãos sobre o teclado, em um cavaleiro musculoso e bronzeado. Paquerava as meninas élficas e contava suas grandes aventuras no mundo três de ‘elflindglóing’ (sic.) onde ele conseguiu a façanha de destruir o demônio do mal e ganhar seis pontos de coragem.
O tempo acaba. O computador desliga automaticamente, junto com a luz de felicidade (ou será a luz da tela do monitor?) que iluminava sua carinha quase translúcida. Ele se levantou, pagou o que devia com o dinheiro que economizou não tomando o ônibus (ida e volta) e foi andando para casa, a uns sete quarteirões da lan house. Sozinho.