Queria escrever um poema,
Mas não o fiz.
Tentei organizar em métrica;
Fracassei.
Pensei em modificar o tom,
Porém não trabalhei.
Considerei um novo tema,
Mas não o empreguei.
Achei que bem faria,
No entanto benfeitoria não tem.
Por pouco eu conseguiria,
Mas a única coisa que surgia
É que nada iria acontecer.
Fiquei no “ia”,
Com gente que ria
Da minha agonia
De pensar que alcançaria
Uma certa alegria
De um trabalho tecer.
Quantas vezes o leitor já conjugou nesse tempo verbal? Comente :-)
31/08/2010
23/08/2010
Um dia em Silent Hill
Certa vez, acordei em Silent Hill. Sim, aquele do filme macabríssimo baseado em um game igualmente tenebroso.
A noite havia sido turbulenta e curta. Levantei-me da cama e senti que havia algo estranho. Com o nariz e a boca ressecados, fui à cozinha tomar água. Contudo, não foi possível matar a sede pois o conteúdo do copo tinha gosto de cinza.
Apesar de levantar cedo, o céu neste dia único se recusava a clarear. Uma luz penada pairava sobre o ar denso e seco. Algo estava realmente estranho.
Uma sirene, como a dos toques de recolher, foi lançada ao vento; a única coisa que cortou a morbidade silenciosa daquela manhã e apertou meu coração, que aparentava saber que algo sinistro se passava.
Fui até a janela para observar o que estava acontecendo no lado de fora. Será que eu havia realmente sido lançado àquele purgatório de Silent Hill? Não consegui descobrir.
O pouco calor ainda resguardado dentro de minha casa (e talvez a adrenalina acelerando meus pulmões) esfumaçou os vidros, tornando a cena que se passava do lado de fora ainda mais fantasmagórica. Só havia uma coisa a fazer. Teria que ir ver com meus próprios olhos se aquilo que se passava em minha cabeça era real.
Abri a porta, e meu coração quase abriu meu peito. Uma aparente névoa cobria todo meu quintal e além do muro. Dei o primeiro passo para fora de casa e vi que uma nuvem de fuligem subia a cada pé movimentado.
O chão de ardósia não era mais avistado e caso alguma parte estivesse descoberta, era porque algum animal havia passado por lá, deixando uma pegada arrastada, cor de carvão, manchando o piso.
Pensei que o apocalipse documentado em Silent Hill havia invadido minha vizinhança. Talvez mais além. Logo veria os monstros pútridos do filme passando pelo meu portão. Ouvi algo se aproximando.
Mas por uma obra divina, o primeiro carro passou pela minha rua. Logo em seguida veio o ônibus, trazendo também um pouco mais de luz ao dia.
Lembrei que o sinal era da fábrica que fica próximo de meu bairro. Ufa. .. salvo... mas...
O que então explica o gosto de fuligem, a névoa sombria e as cinzas sobre meu quintal?!
Ah.. lá está. No terreno baldio de minha casa e na fazenda no fim de minha rua resolveram aproveitar o tempo de seca para queimar o que não se precisava.
Estava em Silent Hill, mas quem me colocou lá não foi a obra divina ou demoníaca, apenas a mão de alguns vizinhos irresponsáveis e de leis que nunca são aplicadas.
E você, caro leitor, já passou por silent hill ou já passou um dia lá? deixe seu comentário!
A noite havia sido turbulenta e curta. Levantei-me da cama e senti que havia algo estranho. Com o nariz e a boca ressecados, fui à cozinha tomar água. Contudo, não foi possível matar a sede pois o conteúdo do copo tinha gosto de cinza.
Apesar de levantar cedo, o céu neste dia único se recusava a clarear. Uma luz penada pairava sobre o ar denso e seco. Algo estava realmente estranho.
Uma sirene, como a dos toques de recolher, foi lançada ao vento; a única coisa que cortou a morbidade silenciosa daquela manhã e apertou meu coração, que aparentava saber que algo sinistro se passava.
Fui até a janela para observar o que estava acontecendo no lado de fora. Será que eu havia realmente sido lançado àquele purgatório de Silent Hill? Não consegui descobrir.
O pouco calor ainda resguardado dentro de minha casa (e talvez a adrenalina acelerando meus pulmões) esfumaçou os vidros, tornando a cena que se passava do lado de fora ainda mais fantasmagórica. Só havia uma coisa a fazer. Teria que ir ver com meus próprios olhos se aquilo que se passava em minha cabeça era real.
Abri a porta, e meu coração quase abriu meu peito. Uma aparente névoa cobria todo meu quintal e além do muro. Dei o primeiro passo para fora de casa e vi que uma nuvem de fuligem subia a cada pé movimentado.
O chão de ardósia não era mais avistado e caso alguma parte estivesse descoberta, era porque algum animal havia passado por lá, deixando uma pegada arrastada, cor de carvão, manchando o piso.
Pensei que o apocalipse documentado em Silent Hill havia invadido minha vizinhança. Talvez mais além. Logo veria os monstros pútridos do filme passando pelo meu portão. Ouvi algo se aproximando.
Mas por uma obra divina, o primeiro carro passou pela minha rua. Logo em seguida veio o ônibus, trazendo também um pouco mais de luz ao dia.
Lembrei que o sinal era da fábrica que fica próximo de meu bairro. Ufa. .. salvo... mas...
O que então explica o gosto de fuligem, a névoa sombria e as cinzas sobre meu quintal?!
Ah.. lá está. No terreno baldio de minha casa e na fazenda no fim de minha rua resolveram aproveitar o tempo de seca para queimar o que não se precisava.
Estava em Silent Hill, mas quem me colocou lá não foi a obra divina ou demoníaca, apenas a mão de alguns vizinhos irresponsáveis e de leis que nunca são aplicadas.
E você, caro leitor, já passou por silent hill ou já passou um dia lá? deixe seu comentário!
18/08/2010
Papiro nostálgico
Como são deliciosas as folhas de papel! Umas brancas, como as nuvens que dão forma aos nossos sonhos; outras cheias de linhas, como nossas vidas. Todas elas tornam todos felizes:
O escritor produz sua vida e cria outras, borrando e sujando de letras negras a alvura da folha; o desenhista também, mas ao contrário do escritor, que borra de forma organizada, contorce a mão e inventa, através de inúmeros traços jogados, uma forma que, aos olhos, faz (ou não) sentido.
O pintor macula a brancura com diversos tons diferentes. Cada um deles é uma alegria ou uma tristeza.
O aluno aborrecido mexe a caneta com um impulso do subconsciente, como uma forma de aliviar a dor. E alivia. E assim vai: com as mãos sai um pato (ou será um pingüim?) albino. Com a caneta sai um personagem cômico que matou a mãe só para fazer uma piada; do lápis sai um homem extremamente forte que salva o universo.
E de tudo isso sai um sorriso (Às vezes pode até ser um sorriso interno: um do coração, por ter expressado o sentimento daquela hora; ou do cérebro. Agradecendo às mãos por terem concluído seu genial trabalho).
Enfim, de uma pessoa que ficou feliz!
E você??
Qual atividade com papéis te deixa feliz?
Deixe seu comentário
O escritor produz sua vida e cria outras, borrando e sujando de letras negras a alvura da folha; o desenhista também, mas ao contrário do escritor, que borra de forma organizada, contorce a mão e inventa, através de inúmeros traços jogados, uma forma que, aos olhos, faz (ou não) sentido.
O pintor macula a brancura com diversos tons diferentes. Cada um deles é uma alegria ou uma tristeza.
O aluno aborrecido mexe a caneta com um impulso do subconsciente, como uma forma de aliviar a dor. E alivia. E assim vai: com as mãos sai um pato (ou será um pingüim?) albino. Com a caneta sai um personagem cômico que matou a mãe só para fazer uma piada; do lápis sai um homem extremamente forte que salva o universo.
E de tudo isso sai um sorriso (Às vezes pode até ser um sorriso interno: um do coração, por ter expressado o sentimento daquela hora; ou do cérebro. Agradecendo às mãos por terem concluído seu genial trabalho).
Enfim, de uma pessoa que ficou feliz!
E você??
Qual atividade com papéis te deixa feliz?
Deixe seu comentário
10/08/2010
Colcha de Remendos
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| Imagem de Rafa Casuso (clique na imagem) |
Lembro que quando tinha cinco anos, minha avó me fez uma colcha de retalhos. Era perfeita, personalizada para minhas necessidades. Os retalhos eram muito bem recortados, simetricamente precisos. O cruzamento das linhas seguia um padrão tão belo que sempre que meus amigos me visitavam, pediam para ver a colcha.
Tudo bem, de vez em quando algumas linhas do meu presente se rompiam (o uso faz com que algumas cedam – nada é para sempre não é mesmo?!), mas minha vovó refazia todo o trabalho quando eu pedia. Era de imediato. Acho que nunca passou pela cabeça dela fazer uma operação “tapa remendos”, provisório. Não. Era serviço consistente.
Continuei crescendo, mas nunca fiquei com os pés descobertos. Lá estava minha costureira nos aniversários. Já tinha pensado no quando eu tinha crescido até aqueles momentos e já tinha nas mãos uma “planta”, mostrando onde colocaria os novos retalhos e outros detalhes para garantir que a colcha continuasse homogênea, segura, firme e sem buracos.
Na área que cobria a região dos meus joelhos até a cintura, ela colocou uma proteção impermeável, caso algum acidente “molhado”, obra da natureza fisiológica, viesse a acontecer. As periferias que ficavam para fora da cama tinham a costura reforçada para que não cedessem à gravidade ou à fricção com a batente da cama.
Resumindo, minha avó é demais, assim como minha colcha (sim ainda a tenho). Pensava que todos tinham o mesmo que eu (uma avó que costurasse com carinho e uma colcha feita só para si), mas me enganei.
Descobri quando, certa vez, meu amigo, Zezinho, me convidou para dormir em sua casa.
Na hora de ir para a cama, ele me deu uma colcha (também de retalhos, segundo ele) de marca muito conhecida. “Cidade”, era o que estava escrito na etiqueta. Lembro que muitos queriam ter aquela colcha em casa, mas era um tanto careira. As parcelas eram altas, diferente da colcha em cima de minha cama, a qual minha mãe só precisava pagar pela linha e panos novos.
Os “retalhos” da “Cidade” eram disformes. Cada um tinha tamanho diferente, o que deixava buracos, remendados de maneira a tentar “esconder o problema”. As linhas de costura faziam voltas e mais voltas, sem nexo.
Anos mais tarde descobri um dos problemas da “Cidade”. As costureiras da fábrica sempre mudavam de tempo em tempo e os trabalhos nunca se complementavam. Uma queria colocar estampas de pirulitos, outra colocava estampas de avião. Uma até que fazia um ótimo serviço na organização de alguns trapinhos e a outra também conseguia costurar bem, mas acho que nunca conseguiram um trabalho em conjunto para suprir o serviço uma da outra.
Depois de conversas e brincadeiras na casa de meu amiguinho, cada um foi para cama com sua coberta. Percebi que a “Cidade” estava meio curta. Ou eu cobria o peito ou cobria o pé. Meu amigo disse que sua mãe já havia ligado para a fábrica (que tinha a promessa de uma colcha com crescimento “sustentável”) para que resolvessem o problema. No fim ela recebeu vários papéis para serem assinados que depois teriam que ser enviados para a “Secretaria de Remendos” para, depois de analisados, serem passados para a “Câmara de Costura” e, quem sabe, a benfeitoria ser aprovada.
Meu colega disse que o serviço sai. O problema é que quando a obra é enfim concluída, outros dois aniversários já se passaram e a colcha, mesmo com panos extras, já não comporta mais a metragem dos colegas. Me deu um lençol, então, para cobrir meus pés.
Ainda me arrumando, ouvi um “rassg” vindo da parte que roçava na cama. Fiquei quieto, com medo que meu amigo brigasse comigo, mas durante a noite senti um ventinho frio que aproveitou o rasgo para me incomodar. Sabia do problema, mas nem meu amigo, nem sua mãe ou as costureiras conseguiriam resolver o problema da “Cidade”.
“Que colcha mal feita”, pensei eu. Vi que o único lugar firme daquela “coisa” era a etiqueta. Feita com um tecido diferente levava o nome da marca e o endereço da fábrica da “Cidade”. O tecido era tão grosso nessa parte que pensei que nem com tesoura se tiraria a etiqueta dali.
Na manhã seguinte acordei assustado. Havia sonhado com uma enchente, e ela se fez na “Cidade”. A mãe de Zezinho pendurou a colcha para ver se secava e tentou me acalmar. “Isso sempre acontece”.
Lá estava aquela “Colcha de Remendos”, rasgada, molhada e fedida, posta num varal bem escondido para que nenhuma visita viesse a perguntar o que era “aquilo”.
E você? Vive com uma Colcha de Remendos ou de Retalhos? responda na enquete e deixe seu comentário sobre sua colcha!
02/08/2010
A pintura e a carta (homenagem aos pais)
Estava eu arrumando meus livros e acabei encontrando um caderno já avariado. Era o que eu usava para escrever algumas idéias minhas quando ainda estava no ensino médio, uns oito anos atrás. Dentre esses textos, encontrei uma carta, muito sarcástica, que havia escrito sobre uma das “mancadas” de meu pai comigo.
Apesar das exagerações (típicas de adolescentes), lembrei do motivo que me levou a escrever a tal carta (ele havia utilizado o carro e não tinha posto gasolina novamente), bem como de outros momentos em que ele cometeu “faltas” com seus filhos.
Sobre esse prisma, pensei em como meu pai havia sido “bacana” até minha adolescência e uma achei que a tal carta era digna de um post no meu blog, como uma forma “interessante” de se fazer homenagem a meu progenitor e a tantos outros que sei que já vacilaram com seus filhotes. Queria ver a cara dele quando visse a tal carta aqui neste blog.
Porém, antes de postá-lo tive que dar continuidade em meu serviço.
Fazia tempo que não pintava minha casa (motivo pelo qual estava também arrumando meus livros e etceteras – rituais organizacionais que só quem os faz entende). Lembrei de quando tinha por volta de seis a oito anos de idade e meu pai me mostrava como devia pintar o rodapé de nossa casa em Campo Grande – MS. “Olha só, você coloca o pincel na tinta e depois tem que tirar o excesso, se não, vai pingar tudo no chão”. Depois disso, passamos para a próxima lição, como “esticar” a tinta, afinal, se “esticar” de mais a pintura fica rala e temos que passar mais demãos e se não “esticamos” o suficiente ficam as marcas do pincel na parede. No fim das contas acabei demorando mais do que pensei para realizar o serviço. Como estava enferrujado, tive que fazer força para me recordar dos procedimentos, e junto deles vinham também as memórias.
Lembro que em todas as casas em que morei sempre gostei das cores e do momento em que passávamos juntos “reformando” a casa (sim, acho que meu pai acabou tomando gosto e adotou como hobby – para si e para seus filhos – o trabalho de pintor).
Foi desgastante. Minha parede tem quatro metros de comprimento e mais três de altura. Além do tamanho, encontrei uma rachadura (gigante) no lado direito de minha sala. Me disseram para passar a massa corrida e pronto, mas me recordei do tratamento especial do Sr. Alencar (meu pai). “Primeiro tem que abrir mais a rachadura, senão a massa não entra e depois de um tempo a rachadura aparece de novo”.
Pois bem. Rachaduras remendadas, e a parede lixada e espatulada, faltava somente a pintura em si, e com isso as tintas. Fui à loja de construção para pegar o que precisava.
O atendente parecia não estar de bom humor. Me atendia como se eu já tivesse anunciado que nada compraria. Se fosse minha mãe teria dado meia volta e dito algo sobre “falta de vontade” e “passar fome”. Mas assim como meu “velho”, continuei observando as tintas que me interessavam, como se nada tivesse acontecido. “Rapaiz, ce já usou essa tinta?” perguntei eu e o moço só respondeu que sim. Continuei a fazer perguntas até que consegui encaixar alguma piada. Aos poucos ele foi amolecendo e quase viramos amigos, assim como costuma acontecer com meu pai. Ele me deu um desconto, e ainda me convidou para tomar uma cerveja no boteco próximo qualquer dia.
Queria continuar meu serviço, mas a fome bateu. Como minha esposa não estava, resolvi convidar meu pai para dar uma olhada no que havia feito em minha casa, nas tintas que tinha comprado e aproveitar para fazer aquela Rabada que só eu, ele e meus irmãos comemos. Quem sabe conversar um pouco.
O problema é que ele é meio calado ... e eu também. “Que achou? só tenho que dar os retoques na parte e cima”. “É... tem que resolver isso”. Ficamos um tempo em conversas pequenas como essa. Ele foi para casa e minha esposa chegou. Ela conversou um pouco comigo, falando sobre seu dia e observando a bagunça que eu havia feito. No final da narrativa perguntou “E esses móveis fora do lugar?”. Eu apenas respondi “Eu sei... tem que resolver isso aí”. Fui para cama e dormi.
Ah...é o post... Lembrei da tal carta adolescente só dois dias depois. Se bem que estou o postando para que ninguém fique curioso sobre a tal carta e com raiva deste texto. Mas depois de todo esse serviço em minha casa, não sei por que, a lembrança da carta passou.
eis a carta:http://videtexto.blogspot.com/2004_07_01_archive.html
Feliz dia dos pais!
E com vocês? Seus pais já deram alguma "mancada" da qual vocês riem juntos hoje em dia? Deixem as suas histórias!!!
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