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| Imagem de Rafa Casuso (clique na imagem) |
Lembro que quando tinha cinco anos, minha avó me fez uma colcha de retalhos. Era perfeita, personalizada para minhas necessidades. Os retalhos eram muito bem recortados, simetricamente precisos. O cruzamento das linhas seguia um padrão tão belo que sempre que meus amigos me visitavam, pediam para ver a colcha.
Tudo bem, de vez em quando algumas linhas do meu presente se rompiam (o uso faz com que algumas cedam – nada é para sempre não é mesmo?!), mas minha vovó refazia todo o trabalho quando eu pedia. Era de imediato. Acho que nunca passou pela cabeça dela fazer uma operação “tapa remendos”, provisório. Não. Era serviço consistente.
Continuei crescendo, mas nunca fiquei com os pés descobertos. Lá estava minha costureira nos aniversários. Já tinha pensado no quando eu tinha crescido até aqueles momentos e já tinha nas mãos uma “planta”, mostrando onde colocaria os novos retalhos e outros detalhes para garantir que a colcha continuasse homogênea, segura, firme e sem buracos.
Na área que cobria a região dos meus joelhos até a cintura, ela colocou uma proteção impermeável, caso algum acidente “molhado”, obra da natureza fisiológica, viesse a acontecer. As periferias que ficavam para fora da cama tinham a costura reforçada para que não cedessem à gravidade ou à fricção com a batente da cama.
Resumindo, minha avó é demais, assim como minha colcha (sim ainda a tenho). Pensava que todos tinham o mesmo que eu (uma avó que costurasse com carinho e uma colcha feita só para si), mas me enganei.
Descobri quando, certa vez, meu amigo, Zezinho, me convidou para dormir em sua casa.
Na hora de ir para a cama, ele me deu uma colcha (também de retalhos, segundo ele) de marca muito conhecida. “Cidade”, era o que estava escrito na etiqueta. Lembro que muitos queriam ter aquela colcha em casa, mas era um tanto careira. As parcelas eram altas, diferente da colcha em cima de minha cama, a qual minha mãe só precisava pagar pela linha e panos novos.
Os “retalhos” da “Cidade” eram disformes. Cada um tinha tamanho diferente, o que deixava buracos, remendados de maneira a tentar “esconder o problema”. As linhas de costura faziam voltas e mais voltas, sem nexo.
Anos mais tarde descobri um dos problemas da “Cidade”. As costureiras da fábrica sempre mudavam de tempo em tempo e os trabalhos nunca se complementavam. Uma queria colocar estampas de pirulitos, outra colocava estampas de avião. Uma até que fazia um ótimo serviço na organização de alguns trapinhos e a outra também conseguia costurar bem, mas acho que nunca conseguiram um trabalho em conjunto para suprir o serviço uma da outra.
Depois de conversas e brincadeiras na casa de meu amiguinho, cada um foi para cama com sua coberta. Percebi que a “Cidade” estava meio curta. Ou eu cobria o peito ou cobria o pé. Meu amigo disse que sua mãe já havia ligado para a fábrica (que tinha a promessa de uma colcha com crescimento “sustentável”) para que resolvessem o problema. No fim ela recebeu vários papéis para serem assinados que depois teriam que ser enviados para a “Secretaria de Remendos” para, depois de analisados, serem passados para a “Câmara de Costura” e, quem sabe, a benfeitoria ser aprovada.
Meu colega disse que o serviço sai. O problema é que quando a obra é enfim concluída, outros dois aniversários já se passaram e a colcha, mesmo com panos extras, já não comporta mais a metragem dos colegas. Me deu um lençol, então, para cobrir meus pés.
Ainda me arrumando, ouvi um “rassg” vindo da parte que roçava na cama. Fiquei quieto, com medo que meu amigo brigasse comigo, mas durante a noite senti um ventinho frio que aproveitou o rasgo para me incomodar. Sabia do problema, mas nem meu amigo, nem sua mãe ou as costureiras conseguiriam resolver o problema da “Cidade”.
“Que colcha mal feita”, pensei eu. Vi que o único lugar firme daquela “coisa” era a etiqueta. Feita com um tecido diferente levava o nome da marca e o endereço da fábrica da “Cidade”. O tecido era tão grosso nessa parte que pensei que nem com tesoura se tiraria a etiqueta dali.
Na manhã seguinte acordei assustado. Havia sonhado com uma enchente, e ela se fez na “Cidade”. A mãe de Zezinho pendurou a colcha para ver se secava e tentou me acalmar. “Isso sempre acontece”.
Lá estava aquela “Colcha de Remendos”, rasgada, molhada e fedida, posta num varal bem escondido para que nenhuma visita viesse a perguntar o que era “aquilo”.
E você? Vive com uma Colcha de Remendos ou de Retalhos? responda na enquete e deixe seu comentário sobre sua colcha!


"Uma até que fazia um ótimo serviço na organização de alguns trapinhos e a outra também conseguia costurar bem, mas acho que nunca conseguiram um trabalho em conjunto para suprir o serviço uma da outra." O maior problema é que os políticos pensam apenas no bem estar do seu partido e sempre ferrar o partido da oposição.Nunca pensam em melhorias para nós, pobres cidadãos.
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